SOMBRAS SOMENTE

12 março, 2008
  O AMOR, OS DESERTOS E OUTROS ASSUNTOS SEM MOTIVO ALGUM

Nunca cheguei a concluir se os desertos podem ser caracterizados pela abundância ou pela carência.
Não me parece que a enorme quantidade de cloreto de sódio no Salar de Uyuni ou a fartura de areia no Nefud são fatores que os colocam na lista de desertos.
Estou mais propenso a crer que é a ausência de certos elementos que definem tais posições.
Talvez, se conseguir encontrar uma resposta, possa por analogia compreender a solidão da alma.

Apreciava na varanda o belo eclipse lunar quando escutei pelo telejornal que o presidente Lula em defesa da ministra Matilde, demitida dias antes, argumentou que ela apenas cometeu uma ‘falha administrativa’ ao utilizar o cartão corporativo em lojas de 'shoppings centers' em benefício próprio.
Voltei a admirar a lua, embora com menos entusiasmo.
Já sem entusiasmo, melhor dizendo.
Puto da cara, na verdade.
“Estás a brincar comigo, meu Deus?” - indaguei num murmúrio.
Só pode ser mesmo gozação do Divino.
O cara é presidente do país e fala que meter a mão no dinheiro público é ‘falha administrativa’.
Ou eu estou ficando louco ou o Onipotente está mesmo a gozar de mim. Das duas, as duas.
Procurei logo ver se o Austregésilo estava por perto.
Austregésilo é um gato que crio e pelo qual já não tenho muita estima, mas que bem me serve para momentos de desabafo. Quando escuto aberrações como essa e ele está em meu colo, sempre lhe torço o rabo.
O bichano estava atrás do sofá com apenas a cabeça à vista e, parecendo ter escutado também a notícia, olhava-me de soslaio. Preocupado até, eu diria.
Eu já não quis mais saber da porra do eclipse.
Pus-me a andar de um lado para outro da sala, sob o olhar atento do felino e coçando asperamente meu desprezível (no momento) saco.
“Então já não bastou o que essa ilustríssima ministra alegou semana passada, meu Deus?”.
“O Senhor não ouviu ela dizer que foi mal aconselhada na utilização desses cartões?”.
“E que, inclusive, tratou logo de exonerar os tais assessores que mal lhe informaram?”.
Como se essa senhora desconhecesse que o dinheiro público não pode ser usado em 'sex shops' ou coisa assim.
Claro que ela não citou os nomes dos assessores demitidos e ainda alardeou que todo o estardalhaço que se fez por essa ‘falha administrativa’ foi mais uma prova de racismo do povo brasileiro, já que a mesma tem origens no continente afro.
“O Senhor quer mesmo me castigar”.
“Zombar de mim”.
Só reclamamos então por ela estar metendo a mão no dinheiro público por motivos racistas.
“Essas pessoas são as mais altas autoridades dessa nação, meu Deus”.
“Não podem ser tão ignorantes, salvo se o Senhor esteja querendo testar os meus limites”.
Tudo bem! O Lula é semi-analfabeto, mas precisava ser tão estúpido?
“Já sei. O Senhor vai dizer que estúpidos somos nós que votamos nele”.
E não posso discordar.
“Não posso, embora eu Lhe afirme que nenhum eleitor do Lula o contrataria para gerenciar um mísero carrinho de cachorro-quente se dele viesse a fonte de sustento desse eleitor.
Quero ver.
Quero ver quem contrataria o Lula para gerenciar a sua empresa. A ele e a todo o seu ‘estado-maior’.
Imagina. O Lula na porta falando merda e o Dirceu, Palocci, Genoíno...Todos do lado da máquina registradora. Bem coladinhos no caixa.
Não creio mesmo que o contratassem.
Outro dia ele falou que o problema do caos aéreo iria ter prioridade zero.
Putaquepariu.
Prioridade zero para um assunto que necessitava urgência.
Deu-me mesmo vontade de esganar o Austregésilo.
_ Senhor Presidente. O zero não é nada. Prioridade zero significa nada.
_ O Senhor nunca ouviu falar no programa do ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que se chamava ‘tolerância zero’?
_Isso significava dizer que não haveria mais nenhuma tolerância com os criminosos.
_Não foi o senhor mesmo quem criou o fantasioso programa ‘Fome Zero’?
_E isso não era para o povo pensar que não haveria mais fome durante o seu governo?
_Da mesma forma, meu querido presidente, prioridade zero significa dizer que não há nenhuma prioridade em tal matéria. Pode ser feita na hora que melhor aprouver.
_Olhe como é fácil entender.
Tolerância zero - Não haverá então tolerância.
Fome zero - Não haverá mais fome.
Prioridade zero - Não haverá nenhuma prioridade.
_O zero é a absoluta nulidade, se assim posso dizer e imploro que tenha a consideração de aceitar o que lhe digo.
Mas talvez os desertos se formem pela intersecção de fatores inexistentes.
Não creio, todavia, que eu possa ser entendido nessas poucas linhas.
Vejo o Amor como um deserto de sentimentos.
Tão inóspito quanto a calota polar.
Não entendo porque o qualificam como sentimento nobre.
O Amor não é tão nobre quanto se apregoa.
Talvez haja o mesmo número de tragédias decorrentes do Amor quanto do Ódio.
O genocídio de Hitler não foi por amor à pátria mãe?
Não há um dia sequer que não haja um crime passional.
Talvez argumentem que nem tudo isso deveria ser chamado Amor, mas existem outros nomes, então?
O amor filial, fraternal ou infernal não difere muito dos carnais. Só permanecem incólumes enquanto não houver desinteresses. A História prova isso.
O Amor é puro interesse.
Dificilmente a Daniela Cicarelli aceitaria casar com o Ronaldo Fenômeno se ele não fosse o ‘Fenômeno’.
E quem disser que tal casamento não foi por amor estará chamando-a de vagabunda.
A Mônica Veloso jamais seria amante do Renan Calheiros se ela não soubesse o retorno financeiro que tal relação poderia ter.
Interessante observar que o vocábulo amante, derivado de amor, possui em certas formas uma conotação depreciativa.
A Mônica ganhou uma senhora bolada com esse romance.
De sobra, tornou-se uma escritora renomada com a publicação da didática obra “O Poder Que Seduz”.
O Renan, coitado, foi que se fodeu.
Viu a conta bancária reduzir bastante com esse amancebamento.
O prestígio foi reduzido a quase nada.
O estrago poderia ser maior, contudo, se nossos parlamentares não concluíssem que o bichinho era inocente de tudo que lhe acusavam. Pode agora ir atrás do dinheiro perdido, então.
No lugar dele eu começaria escrevendo um livro também.
O título? “O Foder Que Reduz”.
O Amor precisa de amparo.
Ele desaba totalmente quando perde seus alicerces.
A Suzana Vieira casou com aquele rapagão décadas mais novo que ela, certamente por amor.
Nesse caso o amor alicerçado pelos interesses carnais.
É mais fácil amar um humilde jovem garboso do que um velho cheio de carnês das Casas Bahia e desanimado até para a Nicole Kidman.
Porque o Amor é um investimento. Necessita retorno.
A Suzana fez um investimento e espera que a cotação do garoto não baixe.
Vão criticá-la por comprar o rapazola?
Ora, é melhor pagar pelo bolo do que comer merda de graça.
O Amor é uma questão de ponto de vista.
Ou mesmo de nada enxergar.
Por isso são comuns expressões como: ‘Não sei o que ela viu nele’ ou ‘Que mulher horrível, mas tem pernas maravilhosas’.
Estamos sempre nos maquiando para o amor.
Com fragrâncias artificiais damos ao nosso corpo um odor que ele não tem.
Procuramos ser mais do que realmente somos.
Mentimos.
Então o Amor necessita de formas belas e prazerosas.
Isso não me parece muito nobre.
Sem amor nos sentimos um pouco como em desertos, embora amando também possamos nos sentir como abandonados no Saara.
O Amor é a fuga dos desertos.
Só quem tem alma de beduíno não precisa muito de amor.
Nos desertos de areia, no entanto, urina de camelo pode ser vista como água cristalina e isso faz com que pessoas humildes, de idade avançada ou de aparência ‘duvidosa’ também possam ser amadas.
O Amor é um sentimento efêmero.
Quando insiste em permanecer, na maioria dos casos é apenas acomodação.
Podemos facilmente deixar de amar alguma pessoa e passar a odiá-la.
Quando a odiamos é quase impossível um dia amá-la.
Interessante como isso parece fazer sugerir que o Ódio é fiel e o Amor leviano.
Os sentimentos de rejeição são convictos por natureza. Quando não gostamos de alguém, não gostamos e pronto. O mesmo não se dá com os ditos sentimentos sublimes e por isso é comum expressão do tipo: “Eu realmente não sei se o amo”.
O Amor é a mesquinhez da posse.
Você se espantaria ao ver como algumas mulheres abandonariam seus imprestáveis maridos se não tivessem medo que outras os pegassem.
O Amor cobra reciprocidade. Até a mãe mais afetuosa lamenta o filho ingrato.
O amor platônico? Ora, ele busca a sublimação da alma. O engrandecimento do ‘eu’. Sempre a necessidade de algum retorno.
O amor a Deus? O temor ou a busca pela salvação eterna.
Novamente algo em troca.
A cara-metade? Num mundo de mais de seis bilhões de seres humanos a probabilidade de você conseguir de forma acidental encontrar a sua alma gêmea faria Laplace se contorcer no túmulo.
Quer saber onde se encontra a sua cara-metade?
Procure na outra metade da sua cara.
Comemos o que nos é posto à mesa.
Outro dia explico melhor esse sacrilégio, contudo.
Não serviu para nada a medida provisória do governo que proibiu a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais.
Pelo contrário. Parece até que aumentou o número de mortes decorrentes dessa causa. O que não é de admirar.
Medida provisória tem força de lei e poucas vezes me deparei com uma tão estúpida quanto essa.
O deserto de cabeças inteligentes do governo do PT.
Primeiro é preciso entender que há necessidade de urgência para uma validade constitucional numa medida provisória e não houve nenhum fator que justificasse essa urgência. Morre-se em decorrência de acidentes causados por motoristas sob efeito do álcool na mesma proporção que antes da medida. Ademais o maior número dessas mortes não acontece em rodovias federais, sem falar que já existe leis para ‘conter’ tais acidentes. Tais leis são ineficientes, contudo, pela ignorância de nossos legisladores.
O Direito precisa ser auxiliado pela Matemática para que deixe de ser uma ciência tão vaga.
Tenho como certo que progressões aritméticas, a Teoria das Probabilidades ou uso de equações prestariam melhor serviço ao Direito do que essa verborréia latina de que se utilizam nossos juristas.
Acho até que deveria ser proibido o uso do latim em questões judiciais.
Ora, as leis são feitas para o povo e se perguntarmos a um simples brasileiro o que é ‘ad vindictam’, ele vai perguntar se isso é de comer ou de beber. Ou pode até ficar preocupado por imaginar que talvez seja algum remédio de aplicação anal.
As leis precisam ser claras e sem interpretações diversas.
E o Lulinha se esqueceu que policiais rodoviários não estão autorizados legalmente a fiscalizar estabelecimentos comercias e, principalmente, multá-los. Um agente rodoviário multar um comerciante é ilegal, imoral e engorda a conta bancária de muitos desses.
Nem quero expor a questão de que não se pode penalizar terceiros por crimes de outros, como sobrou para os comerciantes.
O que o governo fez foi criar um comércio paralelo e totalmente ilegal para a venda dessas bebidas pelas nossas estradas.
Já tá cheio de barracas à beira das rodovias vendendo uma gelada.
A lei causou um efeito contrário. Até aproximou mais a bebida do motorista. Agora ele nem precisa sair do carro.
Querem reduzir o número de acidentes devido ao consumo de álcool?
Esqueçam o latim, então.
Usem a Matemática.

Poucas vezes fiquei tão entristecido quanto com a morte do Bobby Fischer.
Amei-o ardorosamente quando criança.
E quão belo é o amor de uma criança.
Só a ingenuidade não investe no amor.
Aos dez anos eu passava madrugadas transcrevendo suas partidas.
Fischer foi o Mozart do Xadrez assim como talvez Alekhine tenha sido o Wagner.
Suas partidas são como telas de Jan van Eyck.
Nunca fui muito com o cubismo, embora aprecie bastante a fase rosa de Picasso.
"Guernica" bem parece um desenho de alunos do jardim da infância feito na hora do recreio.
Os quatro movimentos que se seguem ao sacrifício da dama na célebre partida de Fischer contra Donald Byrne bem lembra os dois compassos que substituem o suave minueto ao dramático terceto de Elvira, Anna e Ottavio no “Don Giovanni”, de Mozart.
Uma explosão de talento.
Aos catorze anos Bobby já era o campeão americano.
E poderia ter sido campeão mundial antes dos vinte, mas o gênio inquieto o fez esperar um pouco mais.
Sentia-se perseguido pelos homens.
Mandou extrair todos os dentes por imaginar que a extinta KGB tivesse colocado um microfone em um deles quando de uma ida ao dentista.
Estava sempre a brigar com os adversários e os dirigentes da modalidade.
Só disputou o Torneio dos Candidatos, em Palma de Mallorca, porque o Grande Mestre Pal Benko, com quem tive o prazer de passar quatro das melhores horas de minha vida, cedeu-lhe a vaga.
E o raio caiu em Mallorca.
Massacrou a todos, perdendo apenas uma partida.
Depois veio Taimanov.
Enfiou seis a zero.
Seis a zero em um TOP 10. Um escore nunca alcançado.
Larsen seria a próxima vítima.
Outro seis a zero.
Seis a zero em um TOP 5. Um fato nunca imaginável.
Petrossian capitulou em seguida de forma mais honrosa. E Spassky, em uma das partidas do match final, junta-se à platéia para aplaudir o novo campeão que acabara de o derrotar.
Dezenove partidas consecutivas com vitórias em cima de grandes mestres.
Um fato único na história do xadrez e que talvez nunca seja igualado.
A chance é de uma em três elevado à décima nona potência.
Isso sem considerar que mais de dois terços das partidas disputadas entre grandes mestres terminam empatadas.
O QI de uma pessoa mediana está em torno de 100 e encontrar alguém com 150 já é bastante improvável.
Fischer tinha QI de 192 na escala de raridade Stanford-Binet.
Houve quem falasse em 198 ou até mesmo 200.
Depois de conquistar o título mundial, sumiu.
Recusou uma fortuna na época para defender o título contra Karpov.
A maior soma que já tinha sido até então oferecida a um desportista em qualquer modalidade.
Sumiu, no entanto.
Bem louco mesmo.
E é loucura sequer imaginar que dez anos depois da tragédia do Palace Dois, ainda tem vítima que não foi amparada pela nossa justiça.
Não dá para acreditar.
Tem ex-morador que já até faleceu.
A justiça brasileira é mesmo uma merda.
Agora sei porque usam toga no Supremo Tribunal.
Proteger o paletó do estrume que é lançado pela sala.
Mozart via cores nas notas musicais.
Pitágoras via números.
O Ministério da Educação manda ensinar a "Teoria dos Conjuntos" usando expressões como conjunto vazio e conjunto unitário.
Putaquepariu.
Conjunto vazio?
Será que não tem um distinto nesse ministério que saiba a definição da palavra conjunto?
E unidade jamais forma igualmente um conjunto.
O absurdo da incoerência.
Todo esse Brasil é incoerente.
A vida é incoerente.
O Amor parece estar sempre à espera que o sol se ponha.
As estátuas que homenageiam políticos deveriam ser sempre sedestres.
Tendo anoitecido, qualquer estrela de merda brilha.
Os desertos são incoerentes.
Com a morte de Fischer me senti ainda mais deserto.
Regiões muito quentes se tornam inóspitas porque o calor abafa a vida.
Não obstante haver pouca vida em lugares frios.
Porque vida é calor.
E o calor da vida é o Amor.
 
Comments:
Me perdoe a sinceridade caso se sinta ofendido, mas isso é um belo amontoado de disparates.
 
Sombras,

Meus comentários não estão aqui - espero que os considere.

Abraços,

Mariana
 
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