A GUERRA SEM ARTE DE SUN TZU

Bem sei que devo parecer bastante pretensioso ao criticar um ‘clássico da literatura universal’, mas o farei assim mesmo. Já estou acostumado a críticas e inúmeras vezes elas me auxiliam a ver por outros ângulos aquilo que eu tinha em uma visão uno focada.
A obra em questão é “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu.
Ainda que não seja uma total porcaria ( há dois parágrafos interessantes ), está longe de ser um ensaio que mereça o prestígio que recebeu principalmente nos últimos anos, chegando a ser uma espécie de bíblia para os estrategistas e servir de estudo para administradores de empresas.
Na verdade, há trechos nessa obra que chegam a ser hilários tal a insistência de Sun Tzu em declamar o óbvio, como no parágrafo em que ensina que ‘a vitória é o principal objetivo da guerra’.
Deus meu! Seria possível alguém, no mínimo, duvidar de tal afirmativa?
O autor também se perde na idéia de que ‘é melhor ganhar uma guerra sem desembainhar a espada’, sem esclarecer exatamente como isso pode ser feito e insistindo nos métodos contrários, de guerra convencional.
Ora, se é melhor ganhar uma guerra sem batalhas, deveria ser no ensinamento de tal prática que a obra deveria se ater.
É visível também em toda a obra uma confusão do autor nas questões de tática e estratégia.
Sei que esse é um assunto bastante complicado (eu mesmo tenho enorme dificuldade para definir com exatidão esses termos) e é de bom senso relevar a distante época vivida por Sun Tzu em que, talvez, ainda não houvesse uma distinção nesses tipos de posicionamento em manobras bélicas.
Temo até, como já expliquei em um texto nesse blog, que não haja nenhuma diferença entre tática e estratégia, já que o que é uma tática em determinado momento, passa a ser estratégia em outro.
Talvez eu me faça mais bem entendido substituindo os termos por planos-meios e planos-fins.
Vejam como a questão é complicada: Vamos supor que um comando tenha como planos-fins (estratégia) ampliar uma linha de frente de ataque que em alguns pontos está em poder do inimigo. Precisará então de planos-meios (manobras táticas) para conquistar esses pontos no intuito de oferecer maior solidez à sua estratégia. E vamos ainda supor, como normalmente acontece, que ele delegue tal tarefa a um comando subalterno.
Ora, para esse subalterno, tal ordem que tem sentido de planos-meios para seu superior, precisará então ser entendida como planos-fins devendo criar outros planos-meios, que nem sequer podem ser entendidos como secundários, para lograr êxito em sua missão. Por exemplo: Manobras para silenciar sentinelas, destruir casamatas e outras diversas.
E ainda seria possível anular os planos-fins do comando subalterno, mas perderíamos precioso tempo com um assunto que não é o propósito dessa matéria.
Vamos voltar então à “Arte da Guerra”.
Lembro que seria cansativo aos leitores se eu fizesse observações de todos os parágrafos que creio merecerem criticas. Escolhi alguns deles, então, obedecendo à ordem dos capítulos em que se encontram na obra.
No Capitulo I, após algumas palavras introdutórias, Mestre Sun alerta que
“Se teus inimigos forem mais poderosos e mais fortes, não os ataques”.
Deus meu!
Algo me faz desconfiar que vou ler uma obra que ensina como atacar somente sendo mais forte que o oponente, e não acredito que precise de muitas lições para isso.
É tarefa relativamente fácil ensinar o mais forte a lutar com o mais fraco, se é que possa haver necessidade de tal ensinamento.
Bonaparte certamente não deve ter folheado Sun Tzu, pois se dispôs a inúmeras batalhas com inimigos nitidamente superiores em número e armas e os venceu. Outros grandes capitães também.
O parágrafo logo abaixo aconselha:
“Finge ser fraco a fim de que teus inimigos, abrindo a porta para a presunção e para o orgulho, venham atacar-te em hora errada, ou sejam surpreendidos e derrotados vergonhosamente”.
Esse parágrafo é digno de um capítulo inteiro de observações diversas. Vou tentar ser o mais breve possível, no entanto.
Primeiro alerto gestores empresarias orientados por obras diversas, que se baseiam na ‘Arte da Guerra’, a tomar cautela com tal ensinamento. É preciso lembrar que só loucos abrem uma empresa para ganhar dinheiro. Empreendedores esclarecidos sabem perfeitamente que só se deve aventurar em um negócio quando são identificadas algumas necessidades no segmento de mercado que se pretende atuar. Ou seja, quando encontramos brechas como uma possível concorrência fraca, mal estruturada, etcétera, é que nos aventuramos em algum negócio. Observe, então, que seguir a idéia de Sun Tzu, ainda que falsa fraqueza, é oferecer portas a novos concorrentes a um empreendimento já estabelecido. O melhor é aparentar uma forte condição que seja suficiente para afugentar novos ‘aventureiros’.
Quanto a esse ensinamento ser aplicável apenas para questões militares, assim mesmo é totalmente errôneo e incoerente com a própria certeza de Sun Tzu de que ‘é melhor ganhar guerras sem desembainhar a espada’.
É só lembrar a Guerra Fria entre o Pacto de Varsóvia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte que fria permaneceu durante décadas devido ao respeito pela forte capacidade militar dos principais integrantes das coalizões, União Soviética e Estados Unidos, e que resultou com a vitória do segundo. Houvesse um dos lados demonstrado algum tipo de fraqueza e posso garantir que essa guerra não teria sido tão gélida.
Claro que houve conflitos e confrontos localizados, principalmente na Ásia, mas os territórios dos principais beligerantes permaneceram imaculados.
Todavia a lição de Sun Tzu é perfeitamente adequada em algumas condições puramente táticas. O problema é que o autor em toda a obra não diferencia uma situação tática de uma de natureza estratégica que, como já disse, talvez não fosse ainda diferenciada nas terras e no tempo do reinado de Wu.
“Toda campanha militar repousa na dissimulação. Finge desordem. Jamais deixe de oferecer um engodo ao inimigo, para ludibriá-lo. Simula inferioridade para encorajar sua arrogância”.
Valem ainda meus argumentos anteriores, mas creio que deva acrescentar que jamais se deve encorajar o inimigo. De forma alguma, salvo quando em raríssimas condições táticas.
O que lhe parece melhor? Enfrentar um inimigo encorajado ou um acovardado? Um inimigo corajoso, mesmo que fraco, é sempre perigoso.
“O general deve basear-se em avaliações prévias. Elas apontam para a vitória quando demonstram que sua força é superior à do inimigo. Indicam a derrota quando demonstram inferioridade”.
Num primeiro momento acreditei que essa era apenas mais uma das colocações óbvias que Sun Tzu nos presenteia durante toda a obra e das quais apontarei apenas algumas. Analisando mais detalhadamente depois, concluí que é uma colocação errada. Na guerra, assim como em outras atividades, existe número incalculável de variantes possíveis e capazes de reverter resultados considerados claramente definidos por certa superioridade. Uma simples partida de futebol pode dar crédito ao que digo. Inúmeras vezes uma equipe nitidamente superior sucumbe a uma formação menos qualificada.
Insistindo ainda na análise do parágrafo cheguei a supor que talvez houvesse uma falha na tradução. O exemplar que tenho parece que foi traduzido do idioma de Se-Ma Ts’ien (não pude precisar qual) possivelmente para o francês pelo missionário Amiot, em seguida para o inglês por Giles e Griffith e só então para o português. Fiquei imaginando então se em vez de ‘indica’ o original dissesse ‘presume’. Isso absolveria em parte o autor, embora ainda deixando a frase na aparência de óbvia. Mas no parágrafo seguinte Sun Tzu cai em um erro similar ou pior.
“Com numerosos cálculos, pode-se obter a vitória. Teme quando os cálculos forem escassos. E quão poucas chances de vencer tem aquele que nunca calcula”.
É claro que calcular é imprescindível em qualquer ação, mas acreditar que apenas com cálculos pode-se obter a vitória é desprezar conceitos até da Lógica. Vamos supor que em determinada situação todos os meus cálculos me levam a admitir uma impossibilidade de vitória. Que através desses cálculos eu evidenciei minha inferioridade frente ao inimigo. Como poderei, então, obter a vitória? Dois mais dois sempre resulta em quatro, por mais que eu necessite de cinco para obter alguma superioridade.
Calcular apenas serve para evidenciar uma possibilidade. Jamais é responsável direto pelo resultado final de qualquer ação.
Não sei se mal me expresso qualificando o cálculo como uma força estática e a ação como uma força dinâmica.
Mal me expresso mesmo. O cálculo é tão somente uma simples ferramenta em qualquer atividade.
“Suponho que comeces tua campanha com um exército de cem mil homens, que dispões de dois mil carros, mil destinados à marcha e os outros reservados para o transporte de suprimentos. Suponho que tens víveres e munições suficientes, que à tua volta haja, em toda a parte, provisões para a manutenção do exército. Suponho ainda que os artesãos e outros homens que não pertencem ao corpo dos soldados já o precederam ou marcham em teu séqüito. Suponho também que os diferentes suprimentos, tanto para o uso bélico quanto pessoal, estejam permanentemente ao abrigo da intempérie e de acidentes imprevistos. Suponho que tens mil onças de prata para distribuir diariamente às tropas, cujo soldo é sempre pago em dia e na mais rigorosa exatidão. Nesse caso , podes avançar direto contra o inimigo. Atacá-lo e vencê-lo será para ti a mesma coisa”.
Não pude deixar de rir.
Em vez de comentar o parágrafo vou me dirigir diretamente ao autor.
Meu caro Sun Tzu
Suponha que seja eu seu inimigo.
Suponha que, em vez de cem mil, eu tenha um exército de oitocentos mil homens.
Suponha que, em vez de mil, eu tenha trinta mil carros destinados à marcha e outro tanto destinados ao transporte dos suprimentos.
Suponha (se de tanto supor não vamos todos nós - eu, você e os leitores - ficar de sacos cheios) que eu também tenha comida pra toda a tropa.
Suponha que eu não seja caloteiro e que também pague a minha turma em dia combinado.
O que lhe faz então supor que me atacar e vencer é tão simples como você supõe e quer que eu igualmente suponha?
Sem mais
E com todo o respeito.
“Aqueles que dominam os verdadeiros princípios da arte militar não atacam duas vezes. Tudo termina já na primeira campanha”.
Nossa!
Isso faz de Sun Tzu o único general da História realmente capaz já que Aníbal, César, Átila, Alexandre e tantos outros, foram levados a inúmeras campanhas para alcançar seus objetivos.
Talvez não tivessem talento suficiente, embora seja difícil encontrar um historiador que assim concorde.
Interessante é que Sun Tzu não esclarece exatamente como proceder para conquistar vitória tão relampejante. Em vez disso, põe-se a discorrer sobre o óbvio que o custo de guerras alongadas recai sobre o povo.
“Se o exército inimigo tem uma medida de grão em seu campo, dispõe de vinte no teu. Se teu inimigo tem cento e vinte libras de forragem para seus cavalos, dispõe de duas mil e quatrocentas para os teus. Não percas nenhuma ocasião de importuná-lo. Faz com que ele pereça à míngua. Encontre meios para irritá-lo. Diminui-lhe ao máximo as forças, desorientando-o, dizimando-lhe... Se fizeres exatamente o que acabo de indicar, os sucessos acompanharão todos os teus passos, em toda a parte serás vencedor”.
Abreviei um pouco o parágrafo já que o importante é a conclusão final.
Seguindo todas essas lições ‘em toda parte serás vencedor’.
Fez-me crer então que não há mais nenhuma necessidade de continuar a leitura da obra. O segredo da vitória é nessas linhas revelado.
Acontece que estamos apenas na página trinta. O que lerei então depois? Métodos mais econômicos do cultivo de arroz na China?
Interessante observar a incoerência (há inúmeras na obra) com a frase “faz com que ele pereça à mingua” que se contrapõe a uma de suas principais idéias que reza ser ‘melhor aprisionar do que destruir o exército inimigo’.
Quiçá houve uma falha na tradução.
“Na guerra, o essencial é a vitória e não campanhas prolongadas”.
Sim, sim! Eu já desconfiava disso. No sexo, o importante é conseguir o orgasmo e não fazer com que a parceira sofra cãibras em posições esdrúxulas e demoradas.
“Não procures vencer teus inimigos à custa de combates e de vitórias. Esse é um caso em que o ‘bom’ é melhor do que o excelente”.
Sun Tzu está disposto a me fazer defunto.
A obra se propõe a ensinar métodos em guerras convencionais, no entanto o autor induz que qualquer aprendizado nesse sentido é perda de tempo. Não se deve combater nem vencer o inimigo.
Recusa-se Sun Tzu, todavia, a explicar sobre um possível tratamento ‘metafísico’ que deva ser infligido ao oponente.
Meu intelecto também não conseguiu compreender como e quando uma definição de ‘bom’ pode ser superior a ‘excelente’.
Seria apenas um jogo de palavras para dar certo tom de nobreza filosófica ao escrito?
Se eu disser que uma noite de sexo com a mestiça Sabrina é ‘excelente’, mas inferior a uma ‘boa’ com Nicole Kidman, não lhe parece uma estranha bobagem que poderia ser facilmente remediada adjetivando adequadamente os sujeitos da oração?
Veja como é simples: Uma noite de sexo com Nicole Kidman é ‘excelente’ e, portanto superior a uma ‘boa’ com a Sabrina.
Para que complicar? É só uma questão de substituir algumas palavras.
“A pior política consiste em atacar as cidades”.
É mesmo?
Há milênios os capitães vêm utilizando essa inferior política e, na maior parte das vezes, se dando bem.
“Se fores obrigado a sitiar uma cidade e a destruí-la, dispõe de tal sorte teus veículos, escudos e todas as máquinas necessárias para o assalto, para que tudo esteja pronto quando chegar a hora de atacar”.
Novamente o óbvio.
Temo que em algum trecho adiante Sun Tzu venha a me dizer que a chuva só pode cair.
Será que existe um general tão intrépido a ponto de querer assaltar uma cidade só no grito?
“Age para que a rendição não se prolongue por mais três meses. Quando este prazo terminar, se ainda não tiveres atingido teus objetivos, certamente terás cometido alguns erros. Empenha-te em repará-los”.
Admirador da milenar sabedoria chinesa, lembro que na infância folheei esse volume. Apenas não recordava por qual motivo subitamente o larguei sem concluir a leitura.
Deve ter sido após esse parágrafo.
Exceto quanto à possível condição esotérica do número três, todo o restante é tão óbvio que chega a ser cômico. Só não consigo mesmo entender o mistério de eu ter que esperar três meses para concluir e tentar consertar meus erros.
“Um hábil general... Ele conhece a arte de humilhar seus inimigos sem travar batalhas. Sem derramar uma gota de sangue, sem mesmo desembainhar a espada, consegue tomar todas as cidades”.
Finda a leitura desse trecho, dirigi-me à janela. Meu gato Austregésilo olhou-me de soslaio. Deve ter previsto o perigo. Sorrateiramente deixou o recinto.
Sempre que me irrito e ele está por perto, o rabo lhe torço.
E fiquei mesmo irritado.
‘Um hábil general... Sem desembainhar a espada, consegue tomar todas as cidades’.
Caramba! Quase todo esse capítulo refere-se à conquista através de força e sangue, mas, segundo Sun Tzu, tais práticas jamais são utilizadas por um hábil general. Seria então toda sua obra orientada à formação de generais inaptos?
Ocorreu-me também que o autor deve ter se perdido nas características de um hábil general.
Lembram daquela afirmação? “Aqueles que dominam os verdadeiros princípios da arte militar não atacam duas vezes”.
Então quem é o hábil general? Aquele que vence sem desembainhar a espada ou aquele que a desembainha uma única vez?
‘Se fores dez vezes mais numeroso que o inimigo; cerca-o de todos os lados; não deixes nenhuma passagem livre; age de forma que ele não possa evadir-se para acampar em outra parte, nem receber qualquer socorro’.
Parece gozação.
Sun Tzu nos apresenta a maneira mais adequada de vencer um inimigo dez vezes inferior.
Acredito que seja importante esclarecer ao leitor que não há registros históricos de um comandante que tenha destruído um exército dez vezes superior ao seu. Mesmo na ‘Batalha de Gaugamela’, quando Alexandre derrotou um inimigo bastante superior numericamente, a desproporção não chegava a tanto. Deduzindo relatos entusiasmados de narradores da época, tenho como certo que a diferença não deveria passar de um para dois.
Se fosse possível converter uma situação de forças na proporção de dez contra um e traduzi-la em possibilidade, dentro da Teoria das Probabilidades de Laplace, certamente um resultado vencedor pelo contingente mais fraco encontraria apenas uma ocorrência dentre mais de um bilhão.
Posso garantir que qualquer lição para quem vai combater um inimigo dez vezes inferior ofereça bons resultados.
Extremamente difícil, se não impossível, é ensinar o lado mais fraco a pelo menos manter alguma resistência.
‘Se teu contingente for cinco vezes superior, dispõe teu exército de forma que ele possa atacar pelos quatro flancos simultaneamente, no momento oportuno’.
Não são poucos os estudiosos que crêem que Sun Tzu seja uma figura lendária. Que jamais existiu.
Deve ser verdade.
Não posso crer que um general tenha deixado lições tão absurdas.
O livro ‘A Arte da Guerra’ deve ter sido escrito por um lunático ansioso por algum prestígio.
Em guerra convencional é quase impossível que um exército tão inferior em número ainda se deixe inocentemente ser atacado por todos os flancos.
Sun Tzu parece acreditar que o oponente nunca tenha um plano. Que tudo acontecerá da forma como apenas o seu lado prevê.
‘Se tens o dobro da força do inimigo, contenta-te em dividir teu exército em dois’.
Não sei porque.
E nem Sun Tzu esclarece.
‘Mas se, em ambas as partes, a quantidade de guerreiros é a mesma, só te resta aventurar-te ao combate’.
Ora puta que pariu!
Depois de ensinar como vencer um inimigo mais fraco, na hora que encontro um tão forte quanto eu, Sun Tzu só falta me dizer: “Agora seja o que o diabo quiser e te vira, malandro”.
Não me agrada com um mísero conselho.
Ocorreu-me, sinceramente, uma reclamação ao Procon contra a editora do exemplar que adquiri.
‘Se fores inferior, fica alerta. O menor erro pode ser fatal. Tenta colocar-te a salvo, e evita, se possível, entrar em choque com o adversário. A prudência e a firmeza de um punhado...’
E interrompo o parágrafo, pois todo ele é só uma seqüência de asneiras.
Inferior, ainda seria eu descuidado?
Todo erro pode ser fatal em quaisquer circunstâncias e não apenas quando em situação de inferioridade.
Colocar-me a salvo? Alguém visa um combate para perder e morrer?
‘Um general pode cometer muitos erros. Se engajar as tropas no momento errado, fará com que ataquem quando não convém. Se não tem um conhecimento dos lugares onde conduzi-las; se lhes impõem acampamentos desastrosos; se as cansa inutilmente; se ordena que retrocedam sem necessidade; se ignora as necessidades dos que integram seu exército; se desconhece o ponto fraco e o forte dos seus subordinados; se não conta com a fidelidade dos mesmos; se não impõe a mais estrita disciplina; se carece do talento de bem comandar; se não recompensa adequadamente seus subordinados; se permite que estes sejam humilhados; se não sabe impedir as dissensões entre os chefes, um general que cometer tais erros tornará seu exército capenga, esgotará homens...’
Credo cruz! Como foi que o militar acima descrito por Mestre Sun chegou a alcançar o posto de general?
Caramba! O cara não tem qualificação sequer para soldado raso.
Na Escola Preparatória para Oficiais do Tráfico da Rocinha era expulso na segunda aula.
‘Para vencer o inimigo, cinco circunstâncias são necessárias: a) Saber quando combater e quando bater em retirada; b)...’
Nem vou citar as outras quatro.
Todo o trecho é pura declamação do óbvio.
‘A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende mostra que sua força é insuficiente; quem ataca, mostra que é abundante. A arte de manter-se na defensiva não iguala a de combater com sucesso’.
Ainda esforçado não consegui compreender o que o autor quis dizer com a ‘invencibilidade está na defesa e a possibilidade de vitória, no ataque’, já que posições defensivas saem-se igualmente derrotadas ou vitoriosas e a invencibilidade independe da ação. O que torna um corpo invencível é a existência de características superiores ao do oponente que, ainda assim, não lhe credita certa e eterna invencibilidade.
Quanto à extensão da idéia indicando que quem ‘se defende mostra que sua força é insuficiente’, pode a uma primeira vista parecer verdadeira, mas é totalmente errônea. Temos inúmeros casos históricos em que posições defensivas, por uma questão de tática ou estratégia, eram superiores ao lado oposto. No jogo de xadrez, que imita movimentos de guerra, Tigran Petrossian, um dos maiores jogadores defensivos de todos os tempos e que por duas vezes conquistou o título mundial, foi o único a interromper uma seqüência de dezenove vitórias seguidas sobre Grandes Mestres infligida por Bobby Fischer, um dos mais perfeitos atacantes na arte de Caissa. Quanto à questão estética de uma possível feiúra na defesa, como Sun Tzu parece indicar, recomendo lembrar o motivo da construção do Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Tal monumento foi erguido para homenagear a majestosa defesa dos gregos frente aos macedônios.
Não há nenhuma ‘inferioridade artística’ na defesa, posso garantir. E Homero, em sua ‘Ilíada’, onde ataques e defesas se prolongam por anos e igualmente de formas magníficas, corrobora minhas palavras.
Convém ainda analisar a afirmação de que ‘quem ataca mostra que sua força é abundante’. Isso pode parecer verdadeiro, mas acredito que seja apenas uma falácia do tipo ‘argumentum ad ignorantiam’, se não me é infiel a memória sobre as falácias. Nem sempre quem ataca mostra que sua força é mais abundante. No mundo animal há inúmeras espécies que comprovam isso. Num exemplo mais corriqueiro observo que não raro nos defrontamos com cachorros da raça pequinês a nos atacar de forma ousada. O coitado não aguentaria um pé no rabo. São, contudo, bem atrevidos. No entanto não mostram evidente força abundante, mas coragem. E coragem não é sinônimo de força. Há um vasto registro de combates em guerra convencional em que o ataque foi considerado apenas corajoso em virtude de uma posição inferior. Deixando as guerras convencionais e entrando nas guerrilhas, vemos que normalmente o lado mais agressivo é o mais fraco em armas e contingente, motivo que os leva a evitar a guerra convencional. Fidel Castro derrotou o exército de Fulgencio Batista com um pequeno punhado de guerrilheiros e os americanos tiveram que sair correndo do Vietnã.
Mas, ainda analisando a afirmação que quem ataca mostra força abundante, eu igualmente esteja incorrendo em outro tipo de falácia com meus argumentos. A de ‘falsa dicotomia’. Já que nem sempre quem ataca mostra força abundante e nem coragem. Há vezes em que o lado atacante o faz por não ver outra saída. Também há comprovações históricas disso e quantas vezes nos deparamos com a indagação ‘não sei onde encontrei força e coragem para enfrentar determinada situação’. É uma forma de ataque visando uma defesa. A maneira encontrada para a sobrevivência, ou apenas desespero.
‘Se quiseres atacar pela ala esquerda, concentra todos os teus preparativos desse lado, colocando na ala direita o que tens de mais fraco. Se quiseres vencer pela ala direita, que seja também na ala direita que estejam tuas melhores tropas e toda a tua vigilância’.
Isso é tão óbvio na ala esquerda que cheguei a pensar que talvez ele oferecesse alguma novidade para a ala direita. Decepcionado descubro que a ‘lição’ é a mesma.
‘Não procures ter um exército numeroso demais. Amiúde, a excessiva quantidade de gente é mais nociva do que útil. Um pequeno exército bem disciplinado é invencível, sob o comando de um bom general’.
Talvez fosse melhor Sun Tzu manter-se no óbvio e não enveredar pelo ridículo. Não creio mesmo que o melhor general do mundo comandando o exército paraguaio pudesse infligir uma derrota aos americanos.
Margaret Thatcher enviou apenas uma força-tarefa para combater o exército argentino na Guerra das Malvinas, que teve desfecho tão rápido que nem deveria ser definido como guerra. Escaramuça, talvez.
‘Entretanto, se teu exército for pequeno, não vás inadvertidamente medir-te com um exército numeroso. Deves tomar muitas precauções antes de chegar a esse ponto’.
Ah, que bom! Sun Tzu retorna ao óbvio.
Não, não! Estou enganado. Creio que agora ele busca espaço na incoerência. Não disse anteriormente que é melhor ter um exército pequeno?
Não entendo mais porra nenhuma.
‘Repito: se quiseres atacar primeiro, não o faças antes de examinar se tens tudo para triunfar’.
É verdade.
É óbvio, mas é verdade.
Um amigo meu não tomou os devidos cuidados ao pular o muro para comer uma vizinha gostosíssima, depois de ter visto o marido sair para o trabalho, e quase foi engolido pelo pit bull que o precavido cônjuge deixou à vigia de seu tesouro.
‘Não te engajes jamais em pequenas ações cujo desfecho é incerto; evita-as...’
‘Antes de ti engajares num combate definitivo, é preciso que o tenhas previsto, e te preparado com muita antecipação. Nunca contes com o acaso’.
‘Inimigo surpreendido é inimigo meio vencido. O mesmo não acontece se ele tiver tempo de reagir’.
E segue-se um amontoado de lições inúteis de tão óbvias que obviamente vou desprezá-las. Pularei algumas páginas, então.
‘Se vires que a ordem reina nas fileiras inimigas, espera que a desordem irrompa’.
E se a espera for em vão?
Se não chegar a desordem ao inimigo?
Devo voltar para casa com meus homens?
Há alguma lei ‘física’ que garanta que um exército ordenado, depois de alguns dias passe a ser desordenado?
O autor deve acreditar que sim. Que tal lei exista. Já que não oferece nenhuma lição para o caso de o inimigo inexplicavelmente se manter em ordem.
Algo mais ainda me inquieta.
Não sei o que.
Deixe-me ver. Deixe-me ver.
Ah! Já sei.
Lembram-se logo no começo de seu ensaio, quando Sun Tzu aconselha que devemos fingir desordem?
‘Toda campanha militar repousa na dissimulação. Finge desordem’.
E se a desordem aparentada pelo inimigo for fingimento?
No momento que espero a desordem do inimigo devo igualmente aparentar desordem como ele aconselha?
Então todo mundo na batalha deve parecer mais perdido que integrante de Big Brother em programa de perguntas de conhecimentos gerais?
‘Se, reduzidos ao desespero, os inimigos vem dispostos a vencer ou a morrer, evita o embate’.
Fudeu-se tudo.
Não estou entendendo mais nada.
Inimigos reduzidos ao desespero não estariam então em desordem?
Não seria esse o momento que Sun Tzu aconselha sabiamente aguardar?
Em desespero age-se normalmente mais pelo instinto que pela razão.
Pelo amor de Deus, decida de uma vez quando se deve atacar, Sun Tzu!
‘Deixe uma saída a um inimigo acossado; caso contrário, ele lutará até a morte’.
Tá bom.
Eu deixo uma saída, ele se retira, depois se reorganiza, vem ainda mais forte e sou eu que vou morrer.
Peço licença ao autor, mas se puder o mato acossado mesmo.
‘Se, por acaso ou por erro, teu exército se encontrar em lugares inóspitos, cercado de desfiladeiros, onde o inimigo facilmente poderia colocar emboscada, de onde seria difícil fugir em caso de perseguição, onde poderiam interceptar teus víveres e armar ciladas nos caminhos, evita com cuidado atacar em tal terreno. Mas, se o inimigo te encurralar em semelhante local, combata até a morte’.
O parágrafo é hilário.
Primeiro por imaginar um general tão desqualificado a ponto de colocar todo o seu exército em local tão desfavorecido. A importância da Logística já era do conhecimento dos mais antigos dos capitães. A utilização de simples batedores, inclusive com o intuito de verificar o terreno, já era prática nas mais remotas campanhas militares.
O riso maior, no entanto, vem do conselho ‘lutar até a morte’.
Além de não oferecer nenhum ensinamento técnico a quem se encontra em situação tão desfavorável, Sun Tzu acredita que o melhor que se pode fazer é morrer.
Para que serve lutar até a morte?
Qual o propósito desse nobre suicídio?
Algo me diz, se minhas faculdades mentais não estão sendo enfraquecidas com a leitura desse livro, que melhor seria aconselhar uma rendição. Outra possibilidade seria bater em retirada.
Por qual motivo se deixar morrer é melhor do que se render?
Será que é aquela questão que não consegui compreender quando Sun Tzu esclarece que algumas vezes o ‘bom’ é superior ao ‘excelente’?
Sei lá.
‘Essas são as nove variáveis ou nove circunstâncias principais que devem te engajar a mudar o comando ou a posição de teu exército, a mudar a situação, a ir ou vir, a atacar ou se defender.....Os princípios são bons em si mesmo; sua aplicação os torna amiúde nefastos’.
Pode-se acreditar nisso?
Sun Tzu oferece uma lição cujos princípios são considerados bons, mas na prática te levarão repetidas vezes à derrota.
Eu tive que reler o parágrafo várias vezes para ver se não estava entendendo errado.
Vou te ensinar uma maneira de construir uma casa, mas quero deixar bem claro que essa casa não vai conseguir se manter em pé. Posso garantir, no entanto, que o método é bom por si mesmo.
Se alguém atinar para uma lógica nisso, imploro que deixe um comentário nesse blog. Ficaria mesmo eternamente agradecido.
‘Se estiveres próximo de alguma montanha, procura ocupar o lado que dá para o sol. Essa localização tem grandes vantagens’,
O autor não cita quais as vantagens, mas posso assegurar que existem inúmeras variáveis para que tal posição possa ser ou não privilegiada, principalmente na época vivida pelo Mestre Sun. Se fosse iminente um combate pela manhã, para uma atuação com arqueiros, por exemplo, melhor seria ter o Sol pelas costas. Caso o combate fosse previsto para a tarde, a mesma posição seria totalmente desvantajosa.
‘Não combatas em terras elevadas, a menos que sejas obrigado’.
Há em toda a obra certa orientação do autor para evitar determinadas circunstâncias ou ainda terreno para o combate. É verdade que nas antigas batalhas convencionais as planícies fossem mais adequadas. Contudo é interessante observar que as desvantagens que terrenos altos ou acidentados podem oferecer a um lado beligerante são igualmente desvantajosas para o outro lado, o que tira um pouco o valor do principio. Talvez até fosse bem conveniente um ataque em terras altas, desde que toda a estratégia do lado agressor estivesse alicerçada nessa condição de terreno. O inimigo, despreparado, seria então surpreendido.
‘Se estiveres em planície, em lugares uniformes e secos, mantém sempre tua esquerda a descoberto’.
Sun Tzu, para variar, não explica o motivo do lado esquerdo a descoberto.
Por quais raios que não pode ser o direito?
‘Procures ter na retaguarda alguma elevação, para que teus homens possam descortinar o longe’.
Algo me diz que bem mais interessante seria ocupar esse elevado e nele explorar uma formação de combate, já que o próprio autor sugere estar à disposição e todos conhecem esse tipo de vantagem em terreno.
‘Quando a vantagem de teu acampamento se deparar com um exército disposto a matar ou a morrer, toma todas as precauções para que o terreno da retaguarda te ofereça segurança em caso extremo’.
Analisei cuidadosamente essa lição de Sun Tzu.
Merece sim, uma especial atenção.
Mesmo dispondo de uma vantagem em terreno sobre o inimigo que deve estar acometido de um possível desespero (matar ou morrer parece evidenciar isso), esse general parece querer desprezar tais fatores a ponto de imaginar uma possibilidade de ser batido e ter que correr em retirada.
Foi a única conclusão que cheguei para a necessidade de um terreno seguro na retaguarda.
‘Se o inimigo.....passando perto de algum rio, correm todos em debandada a se saciar, estão sedentos’.
Sim, sim. E depois todos dão uma mijadinha pra sacanear com o inimigo que virá depois.
‘Se nos diferentes destacamentos matam-se furtivamente cavalos para alimentação, é prova de que as provisões estão no fim’.
Sim, sim. Em Mossoró é famoso um jabá feito com carne de jegue.
‘Se, sob diversos pretextos, alguns soldados solicitam o desligamento, é porque não tem vontade de combater’.
Sim, sim. Mas acho que aquele jabá de jegue é preparado em Juazeiro do Norte e não em Mossoró. Agora não tô bem certo.
‘Na guerra, a superioridade numérica isolada não confere vantagem’.
Não, não. O jabá não é com carne de jegue. É feito com carne de mula. Porra! Minha memória tá foda.
‘A superfície da Terra apresenta uma variedade infinita de lugares’.
Dê-me paciência, Senhor, para terminar essa matéria!
‘Um inimigo bem preparado, contra o qual teu ataque fracassou na primeira investida, é perigoso. Não tentes uma segunda ofensiva’.
Napoleão, na Batalha de Eylau, não seguindo esse valioso conselho, conquistou brilhante vitória contra um oponente bastante superior em artilharia e contingente. Tendo, numa das primeiras investidas, sob o comando de Augereau, sua infantaria massacrada, ordena a Murat que avance com seus cavaleiros. E o triunfo surge como por encanto ou magia. Há inúmeros outros casos iguais.
‘Se teu exército e o do inimigo se equivalem, é preciso que, de dez partes das vantagens do terreno, nove estejam de teu lado.
Porra!
Por que diabos eu não posso ficar logo com as dez vantagens?
Se eu não deixar uma vantagem para ele pode dar azar?
‘Conseguindo-as, teu inimigo será obrigado a recuar e a bater em retirada assim que apareceres’.
Então quando a luta será deflagrada?
Se toda vez que um lado conseguir nove em dez vantagens, o outro lado se retira, vai ser uma brincadeira de gato e rato.
Mas eu queria mesmo é saber por qual motivo não posso ter logo as dez vantagens.
‘Se ele for imprudente a ponto de te atacar, tu o combaterás com a vantagem de dez contra um’.
Ah! Vai ter uma briguinha, então.
Ainda acho, porém, que deveria ficar com todas as dez vantagens.
Sabe como é que é. O ‘seguro morreu de velho’.
‘Há nove tipos de terrenos que podem ser usados com vantagens e desvantagens, por um ou outro exército’.
E Sun Tzu se põe a descrevê-los.
Essa postagem já está por demais extensa para eu discorrer por todos eles. Não posso deixar, contudo, de mostrar o que me pareceu certa incoerência do autor quanto à utilização do primeiro tipo de terreno.
Observem:
‘Chamo de lugares dispersivos, os que se situam perto de nossas fronteiras. Tropas ociosas que permanecem muito tempo na proximidade de seus lares compõem-se de homens que tem mais vontade de perpetuar a raça do que se expor à morte. Ao primeiro sinal de aproximação do inimigo, ou de qualquer batalha iminente, o general não saberá que decisão tomar, quando vir esse grande contingente militar se dissipar e se evaporar, como uma nuvem varrida pelos ventos’.
Observe agora o que Mestre Sun diz algumas páginas adiante:
‘Todo o resto permanecendo igual, o exército que combate em terreno próprio é duplamente mais forte’.
Não é de bagunçar a cabeça de qualquer um?
‘Se te engajares inadequadamente em uma batalha, evita fugir. A fuga causaria tua perda. Perece em vez de recuar. Pelo menos morrerás com bravura’.
Uma péssima lição (ouso dizer) ainda que reconheça o certo valor moral de um guerreiro lutar até a morte. Tal atitude é totalmente inadequada para um general, no entanto. O primeiro dever de um comandante é com a sua pátria. O segundo com a proteção de seus subordinados, e somente depois com a sua honra. Levar seus comandados, igualmente, à morte apenas para salvaguardar a sua honra é, no mínimo, leviano. Mas ainda pior que a moral inadequada que a lição procura dar é a falta de nexo que ela contém. Observem: ‘A fuga causaria tua perda’, e em seguida, ‘morra em vez de recuar’. Morrendo eu não estou da mesma forma perdendo?
‘Uma vez a campanha começada, imita a rapidez de uma lebre que, perseguida pelos caçadores, tenta, por mil desvios, refugiar-se com toda a segurança em seu covil’.
Uma horrível comparação do autor para ilustrar os movimentos da tropa. Ficar fugindo desvairadamente como uma lebre? Seria bem melhor se escolhesse outro animal. Eu teria usado o guepardo, por exemplo, que utiliza sua rapidez no ataque e não para procurar segurança em uma toca.
E termino por aqui essa crítica, já que o restante da obra é apenas um reavivar das lições e alguns preceitos éticos (interessantes, até) necessários a quem comanda um exército ou uma nação.
Faz-se, entretanto, necessária uma consideração final, me acredito, que possa esclarecer a um leitor desatento que, porventura, queira oferecer alguma desculpa a Sun Tzu no intuito de que eu deveria bem observar a época em que essa obra foi escrita.
Quero deixar claro que não há nenhum motivo para tais desculpas no que se refere a esses remotos anos. A obra não foi elaborada nas trevas da Idade Média. O tratado ‘A Arte da Guerra’ foi escrito num tempo bastante fértil do pensamento humano para que tal consideração fosse válida, embora algumas vezes eu próprio tenha procurado desculpar o autor ao ignorar diversas posições que deveriam ser mais bem esclarecidas principalmente no tocante às diferenças entre condições de tática e estratégia, ou mesmo sobre questões logísticas.
Aqueles foram alguns dos anos mais profícuos da humanidade. São os anos que sucederam ao Tao Te King, em cuja obra deve Mestre Sun de forma lamentável ter se ‘inspirado’ em alguns capítulos. São os anos do surgimento de grandes capitães, senão os maiores de todos os tempos. Campanhas militares inigualáveis. Enorme conhecimento e expansão na arte bélica, como atesta de forma surpreendente a leitura de Plutarco. Perfeito domínio de técnicas logísticas e engenharia militar. São alguns dos poucos anos em que se estuda a Lógica e a Ética em suas relações com a política e a guerra, e só mais de dois mil anos após viria o estudo de Clausewitz. Aqueles eram tempos em que o conhecimento imperava. Os jovens, diferente dos dias atuais em que admiram e se espelham em ídolos formados em ‘reality shows’, discutiam (ai meu Deus, que inveja) Moral ou Metafísica, e um certo Sócrates foi condenado a morte por ‘corrompê-los’ com uma das mais belas filosofias que o homem conheceu.
Não. Aqueles não eram tempos apropriados para que de alguma forma se possa desculpar o que aparenta ser, no mínimo, ingenuidade nos escritos de Sun Tzu. Não eram.
*
*
*
_ Nenhuma prepotência, meu anjo sapeca. Veja como são apenas 'manos de gorríon'.
OS AUXILIARES NEGROS

Pela janela da sala ele observava a pista de corridas do Ginásio defronte ao prédio que agora, na madrugada, iluminado parcamente pelo luar, mal dava para divisar as linhas que separam os atletas e, no entanto, parecia ver corpos se movimentando. Mas estava bastante pensativo para se ater ao que logo concluiu ser reflexos ou sombras das nuvens e continuou soltando baforadas do cigarro que chegava ao fim.
Buscava nesse momento nova pujança para recompensá-la, certo de que ela não estava satisfeita devido à rapidez do primeiro enlace e culpa da eterna ejaculação precoce.
Era quase sempre assim. Havia um espaço, como um interlúdio, entre uma relação e outra, onde ele adquiria novas forças e ela se asseava da anterior.
Foi quando viu os negros - quatro talvez - e como eles pareciam se dirigir à cozinha, apressou-se em segui-los jogando o toco do fumo janela abaixo.
Nada encontrou, no entanto, salvo um rápido espectro escuro e esguio que parecia escapar pelo basculante. Abriu, então, a geladeira e sorveu alguns goles d’água direto da jarra, sem muita demora, pois ela já devia estar novamente pronta.
Entrando no quarto encontrou-a jogada de bruços sobre a cama, desnuda inconteste por uma pequena calcinha com detalhes floris que relutava em se impor às fartas nádegas.
Subindo no colchão divorciou as gélidas coxas e se ajoelhou entre elas iniciando uma suave carícia pelos montes gêmeos.
Os negros reapareceram.
Ainda que mal os visse - sombras quase imperceptíveis - percebeu ser mesmo um quarteto.
Pareciam se massagear erguendo, ainda que em pé, alternadamente as pernas um ao outro.
Não se deteve, contudo, e voltando a atenção a ela, que começava o movimento suave, pendular e indicativo das ancas, tirou a bermuda e abaixou-lhe metade coxas a calcinha.
Os negros, já um pouco mais visíveis, retiraram os casacos e se exibiram de calção e camiseta.
Apalpou-lhe por baixo a vagina úmida sustentando com a outra mão o membro endurecido.
Um deles se agachou com uma das mãos ao solo segurando na outra um bastão longo e rígido.
E um surdo barulho de estopim o fez entrar de forma inteira e brusca fazendo-a engolir um gemido contido.
Ainda que incômodo, o espanto serviu para que vislumbrasse o outro momento.
Era o tiro de largada.
Berlim 1936.
As olimpíadas do Terceiro Reich.
Estádio das provas de atletismo.
Revezamento 4 x 100.
Os ‘auxiliares negros’ da equipe americana. Assim denominados pela imprensa alemã.
Jesse Owens e companhia.
Uma grande massa espectadora levanta eufórica na partida dos competidores.
Hitler não está na tribuna de honra.
Talvez Goebbles ou Carl Diem.
Os atletas italianos tomam a dianteira.
A representação americana vem em segundo mantendo um bom ritmo.
Ele sustenta um equilíbrio no vai e vem por dentro dela.
O ritmo é tão bem equilibrado que por nenhum segundo a desatenta.
Oitenta metros já se foram.
Cornelius Johnson é o segundo.
O bastão ganha outra mão.
Ainda mais veloz fica a competição.
No quarto grita toda a multidão.
Mais frenética se faz a penetração.
E por enquanto nada de ejaculação.
“Ai, que bom”, geme ela então.
Contorcida busca melhor posição.
Empina toda a traseira.
E cento e setenta metros já se vão.
Os negros tomaram a dianteira.
Os nazistas temendo pela competição.
Ralph Metcalfe corre por terceiro.
Ela sente que o recebe inteiro.
Roda de moinho em toda força.
Cavalgada desenfreada.
Corpos agitados e suados.
Lençóis esparramados.
O prazer que não para.
O tempo que não para.
Jesse Owens se prepara.
É o último do revezamento.
Cospe na mão para pegar o bastão.
Ele a cospe no ânus para outra introdução.
Ela é toda agitação.
Jesse Owens dispara.
No travesseiro ela se ampara.
Cavalgada desembestada.
Gozar sendo sodomizada.
A vitória já é anunciada.
Vinte metros finais.
Cavalgada incontrolada.
Mais firme a faz socada.
Ainda mais firme. Mais e mais.
Os corpos que gemem.
Gemidos, suor e sêmen.
Cavalgada desvairada.
E Owens explode pela linha de chegada.
E rompe o infinito momento da gozada.
Cavalgada terminada.
Abandonando o corpo ainda tomado pelo espasmo, ele o deixa cair no suporte de espumas, ainda atento aos negros que parecem se confraternizar e vão ficando menos visíveis.
Logo seriam sombras novamente e abandonariam o quarto de ares saturados.
_ Puxa! Hoje você merece uma medalha. _ ela elogia satisfeita e festeira.
Sem nada escutar e tanto atordoado, ele levanta-se na esperança de ainda se ter com os vultos em outro ambiente, talvez.
Nada na cozinha.
Nada na sala.
Indo à janela avista-os no Ginásio defronte ao prédio.
Parecem subir a um ‘podium’, mas logo se esvaem totalmente.
“Será que ele conseguiu se livrar dessa joça de gozar logo?”, ela se indaga esperançosa.
Sem nada mais por ver, ele fecha a janela com certa reverência e gratidão por esses estranhos ‘auxiliares negros’.
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NOTA DO AUTOR:Senti que era preciso reduzir pela metade esse conto de sua forma original já que (creio) visitantes de blogs esperam leituras rápidas. Espero, todavia, não ter perdido a idéia principal da composição que era testar uma escrita de parágrafos curtos com uma certa cadência imposta através de sufixos semelhantes sem, contudo, tomar aparência de versificação. Na poesia as rimas devem se apresentar de forma graciosa como num desfile. Nesse ensaio tento expô-las marchando rudemente. Não sei se o objetivo foi conseguido, mas é certo que da mesma forma que é prazeroso apreciar a leveza de uma modelo, em passos quase inaudíveis, deslizando por uma passarela, também é gratificante ao espírito apreciar uma marcha de militares com batidas rudes e fortes dos cuturnos ao chão. Deve acontecer de igual forma na literatura, me acredito.
NÃO EXISTEM LABIRINTOS


A história é conhecida e pertence à mitologia grega.
Tem, contudo, versões um pouco diferentes.
Minos, rei de Creta, pede - ou obriga - a Dédalo, inventor de grande fama, que construa um labirinto para aprisionar o fruto do adultério de sua esposa Pasifae com um touro, o Minotauro.
Aqui começa o problema.
Ora, se Minos pede para construir um labirinto, não poderia então ser Dédalo o inventor do mesmo e pode ser ‘perdoado’ por um engenho tão inútil, já que labirintos não existem.
Alguns escritos indicam, no entanto, que Minos pede ao inventor que construa uma prisão, e a Dédalo fica o crédito do tolo invento.
Fico imaginando o quanto dessa história pode haver de Heródoto que viajando pelo Egito pode ter se maravilhado com as edificações de Moeris.
É claro que Heródoto levou sua vida em época bem posterior a Minos, mas havemos de levar em conta a força de suas narrativas.
Também é conveniente lembrar que construções com corredores confusos como a encontrada por Sir Arthur Evans bem eram comuns nos vales do Nilo.
Seguindo a linha de que Dédalo é o inventor do labirinto e considerando sua genialidade possível de construir um que fosse ‘autêntico’, lá fui perder algumas noites de sono para construir emaranhados de corredores que pudessem comprovar a eficácia do invento desse grego a quem se atribui a invenção, entre outras coisas, do mastro e da vela.
Infelizmente não existe didática alguma que trate de labirintos e como gosto de ‘métodos científicos’, tive que rabiscar alguns.
Iniciei classificando os labirintos em fechados ou abertos.
Isso é de grande importância, pois astros podem servir para a ‘navegação’ nos labirintos abertos, desses que existem nos parques franceses. Nos fechados, os métodos deverão ser outros.
Excluí para o estudo os labirintos com só uma entrada-saída já que o de Creta não era dessa forma, pois embora Teseu tenha retornado pela entrada com o auxílio do novelo, o próprio Dédalo com seu filho Ícaro lograram fuga por outra saída, a que dava para o mar.
Ademais tentar encontrar uma solução para sair de um labirinto ‘autêntico’ com só uma entrada-saída é mesmo perda de tempo. Basta seguir o ‘ingênuo’ método de Ariana, utilizado por Teseu.
Depois de classificados vi a necessidade de dividi-los em grupos. Os retos (que possuem corredores que se quebram em ângulos retos), os curvilíneos (sem nenhuma angulação) e os mistos (com curvas e ângulos como o da foto dessa postagem).
Cada um deles deveria requerer um método diferente para encontrar a saída.
Mas há de se pensar em labirintos com vários patamares como poderia ser o de Gortínea, já que Sir Arthur Evans sugere que o próprio palácio de Cnosso era o mitológico labirinto e Dédalo bem poderia se utilizar desse recurso para complicar ainda mais a busca da saída.
Ou seja: Mais dois subgrupos.
Resumindo: Haveria de encontrar doze métodos distintos para sair de labirintos. Duas classes vezes três grupos vezes dois subgrupos.
“Tô estrepado”, pensei.
Pode ser relativamente fácil sair de um labirinto ‘autêntico’ da classe abertos e do grupo retos tomando os astros para navegação e somando os ângulos em contadores distintos de acordo com os pontos cardeais em que se direcionam de forma que nunca excedam a uma diferença de 270 graus nas somas das viradas à esquerda e direita (o que evidenciaria um ‘loop’) e subtraindo 180 graus que equivale a meia-volta de um dos contadores (direita ou esquerda, dependendo da nova direção), sempre que forem encontradas paredes (barreiras) no final dos caminhos, mas o que fazer quando esses labirintos são do subgrupo de vários patamares? Descendo um dos níveis não podemos contar com a ajuda de astros e todas as somas terão que ser zeradas.
Por sorte perdi apenas uma noite com essa questão, pois logo percebi que Dédalo só poderia construir um labirinto perfeito se pudesse colocar ‘loop’ dentro deles.
Lembro que ‘loop’ é uma situação em que se fica a dar voltas sem fim. Sempre se retorna ao mesmo lugar.
Passei então a desenhar labirintos que pudessem conter ao menos um mísero ‘loop’.
Gastei teimosamente algumas noites para descobrir que é impossível.
Mesmo com labirintos de vários patamares não se pode construir um ‘loop’ dentro. Acredito até que seja possível formular um teorema que comprove isso, mas um simples ‘enunciado’ pode evitar tal esforço.
E arrisquei: A trajetória de um ponto X a Z segue sempre uma linha lógica que conduz um ponto a outro ainda que contenha variante que possa desvirtuá-la, pois do contrário ninguém poderia concebê-la. Isso soa até como um axioma.
E concluí, após algumas noites perdidas, que Dédalo era um enganador, se me permitem o atrevimento.
Não existem labirintos.
Qualquer idiota sai facilmente de uma dessas engenhocas apenas encostando seu ombro direito (dá no mesmo se for o esquerdo) à parede no momento da entrada e nunca o afastar até que chegue à saída. Ou seja: Pode-se sair de um labirinto até com os olhos vendados.
Para quem desconhece esse método sugiro que o experimente nesses labirintos que são encontrados em revistas infantis.
Seguindo esse método nunca se passa mais de duas vezes por um mesmo caminho, donde se conclui que o tempo máximo para encontrar a saída (se estiver azarado suficiente para entrar em todos os corredores fechados no final) é a extensão total do labirinto multiplicado por dois subtraindo o tamanho dos corredores de entrada e final, já que esses só são percorridos uma única vez.
A prisão do Minotauro sempre esteve com as portas abertas então.
Dédalo teria enganado o rei de Creta?
Talvez, mas acontece que se evidenciam crassos erros de observação da parte de Dédalo em toda a história mesmo considerando a distante época em que as ciências ainda engatinhavam, principalmente quanto do conselho ao seu filho Ícaro que, durante o vôo da fuga pelo mar, não subisse a grande altitude, pois o calor do Sol derreteria a cera que ligava as penas das asas.
Ora, cientistas e inventores possuem grande poder observador, sendo até uma condição ‘sine qua non’ para um bom exercício de tais funções. E, lembro, que Dédalo era o maior de seu tempo, tendo sido talvez o primeiro a evidenciar a lei física de ação e reação com a qual concebeu o mastro e a vela.
Como então pode imaginar que quanto mais alto o vôo, em temperaturas mais altas se encontraria?
Claro que em época tão distante era desconhecido que o calor do Sol em nosso planeta tem pouco ou nada a ver com a distância em que Terra e Sol se encontram, mas sim com a angulação com que os raios adentram nossa atmosfera. Por esse motivo é que às doze horas da manhã é sempre mais quente que pelas seis da tarde embora a distância entre ambos seja a mesma nos dois horários. Ao meio dia os raios rompem a camada atmosférica em perfeito ângulo reto em relação à Terra. Circunstância que nunca ocorre nos pólos onde sempre entram numa angulação próxima de 180 graus e por isso tais regiões estão sempre congeladas.
Óbvio, como já disse, que o tempo era muito remoto para que Dédalo disso tivesse conhecimento, mas conceber que altura pudesse resultar em maior aquecimento é não ter o mínimo poder de observação para um inventor de seu quilate já que uma simples olhada para o cume de alguma montanha revela uma neve que não se encontra no sopé. A mesma neve que cai de céus mais próximos ao Sol. Nem quero citar que poderia até ser questionada a plumagem que envolve os pássaros, dos quais ele retira a idéia para seu vôo, que servem para aquecer tais animais em pontos mais elevados, me acredito.
E o que interessa tudo isso?
Sei lá.
Eu precisava me distrair por esses dias que a inspiração tem me importunado.
Não consigo tolerar a inspiração.
Nada pode ser tão maléfico a qualquer exercício que o estro.
Tenho como certo que Flaubert jamais escrevia por inspiração, embora Salambô possa confundir o leitor desatento.
Em Bovary as linhas fluem suavemente sob a pena metódica e meticulosa sem nenhum arrebatamento.
A inspiração furta a arte e favorece o artista.
A finalidade do artista é revelar a arte, todavia, e nunca o contrário.
Chopin busca a magia envolvente dos mares e o encanto do infinito som das ondas que se quebram, e não percebe que no repuxo levam um pouco de sua obra.
Caravaggio pincela as formas em fundo escuro. Não há necessidade de luz artificial para uma bela obra.
A inspiração deixa o artista tolo.
O amor deixa o artista tolo.
A felicidade pode ser tão fugaz quanto intensa.
O homem não é nada perante a obra.
O homem levanta, peca, cospe sobre a grama e morre.
A obra é tudo perante o homem.
Pode ser criticada ou violentada, mas nunca perece. Inútil cavar túmulos para ela.
Desfigurando Dédalo passo a ser o Minotauro.
Jamais, no entanto, alcançarei seu vôo.
Durmo sempre sob teto de zinco.