SOMBRAS SOMENTE

02 fevereiro, 2007
  DEUS NÃO CAPACITA OS ESCOLHIDOS

Sempre tive um certo receio quanto à inspiração.
Na verdade, nunca gostei de escrever quando sou acometido por esses estímulos do pensamento.
Quase sempre que sou tomado por alguma forma de estro, seja poético ou místico, procuro ir logo tomar um cafezinho ou simplesmente esquadrinhar o céu na esperança de tentar descobrir quantas estrelas há em cada espaço que delimito.
Assim a inspiração lentamente se vai.
Não a aprecio mesmo.
Porque a inspiração, diferente do lampejo ou da serendipitidade, surge de forma totalmente espontânea e inadequada inúmeras vezes.
O lampejo, não. O lampejo é fruto de uma justaposição de idéias e aparece como conseqüência de algum esforço mental anterior.
Isaac Newton e Arquimedes são maravilhosos exemplos frutificados do lampejo.
Já a serendipitidade pode até ter a aparência de forma casual, mas na verdade surge como definição a um intelecto que já estava predisposto a determinado tema.
Essa minha definição de serendipitidade provavelmente contrarie alguns especialistas, alerto. Mas acredito que estou ciente do que digo e tenho em Charles Darwin um belo exemplo de tal manifestação.
Observa-se então, dentro dessas definições, que a inspiração, é a única que não ocorre quando já houve alguma manifestação anterior ao seu aparecimento. O que pode levar a erros.
Sim, e que me perdoem os poetas por proferir tal ‘blasfêmia’, a inspiração pode induzir a grandes equívocos.
A inspiração pode trazer consigo a beleza, mas poucas vezes a verdade.
Por isso eu me negar a escrever quando sou acometido por ela.
Talvez seja melhor eu expor alguns prováveis enganos decorridos do estro para que a idéia possa ser mais sustentável.
Lembro ao leitor que me referi a ‘prováveis’ enganos.
Todos sabemos da grande capacidade de John Kennedy na oratória e as belas frases que legou à humanidade, embora a maioria delas seja de autoria de um assessor que escrevia seus discursos.
“Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas sim o que você pode fazer pelo seu país”.
É uma frase maravilhosa, sim, mas pode-se perceber claramente o estímulo da inspiração, porque traz a beleza, embora a verdade seja duvidosa.
Se analisarmos friamente, podemos descobrir que países, nações...Nada são.
E tal frase, muitas vezes é orientada a criar um certo espírito de patriotismo que será muito bem explorado por um determinado grupo, em benefício próprio.
A História nos comprova isso.
Ademais, se vasculharmos os primórdios do homem em convivência social em estruturas de alguma forma organizadas, veremos que a sustentação desses elementos é bem efêmera.
Os primeiros humanos não se organizavam em grupos?
Com o passar dos anos atingiram as tribos, que resultaram em aldeias, que evoluíram para cidades, que se transformaram em cidades-estados, que se estruturam em países e que em alguns casos, tomaram a forma de impérios.
E todos os Estados modernos não estão tomando a forma de uma unificação em bloco?
O Mercado Comum Europeu e outras alianças bem podem fazer com que esses países, quiçá num futuro ainda longínquo, rasguem as suas tão exaltadas bandeiras no benefício de uma outra subseqüente e única.
Porque uma nação não é nada mesmo. A História tem um número sem fim de flâmulas abandonadas.
O homem é tudo.
E talvez a frase de Kennedy fosse mais elogiável se beneficiasse o homem ao invés do Estado.
Mas vejamos um outro exemplo.
A maravilhosa frase de Fernando Pessoa, em forma de verso, no poema ‘Mar Português’.
“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”
Uma frase de grande efeito.
De aceitação fácil e rápida pela beleza.
Mas será que podemos aceitá-la como verdadeira?
Uma alma superior tem mesmo direito a tudo?
Isso não pode oferecer margem a atenuantes para diversos males?
Não.
Não posso crer que tudo seja louvável a uma alma nobre, embora tenha uma admiração quase doentia por Pessoa.
Vejamos ainda um terceiro caso.
Uma frase de autoria desconhecida.
Muitos a têm como bíblica, mas essa compreensão é devida a posições parecidas em escritos testamentários e proféticos.
Podemos encontrar em Paulo, nos romanos em forma de justificativa e também é possível vermos algo nos tessalonicenses, mas numa idéia de iluminação.
A frase como a conhecemos e entendemos não está nos textos sagrados.
Certamente foi composta por alguém assaltado pelo estro.
“Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”.
São mesmo muitos os adoradores dessas palavras.
A repudio, no entanto.
Aceitar tal ‘blasfêmia’, seria o mesmo que considerar como válidos os atos de muitos tiranos.
Não tinha Hitler exatamente esse pensamento em sua seleção de partidários em alguns corpos do nazismo?
Não eram minuciosamente escolhidos os membros da Waffen SS?
Não procurava capacitar a juventude hitlerista ou a sua guarda conhecida como Leibstandart?
Sendo esses membros escolhidos e preparados tal como sugere o pensamento acima.
Não poderia essa frase ser usada para justificar idéias como o do ‘sbermensch’ (super-homem) ou a filosofia de Alfred Rosenberg?
Não.
Não posso crer em um Deus discriminador e favorecedor dos mais aptos.
Teria que renunciar a toda a compreensão que tenho Dele.
Teria que abandonar até mesmo a aceitação do livre-arbítrio.
E, não sendo eu um ‘escolhido’, estaria então livre a cometer qualquer ato.
Teria que ser justificado e perdoado por não pertencer a ‘essa elite’ divina.
Não. A frase longe de ser verdadeira, embora bela, dá-me elementos de estupidez.
Sinto se desagrado a muitos. Tenho, contudo, essa frase como fruto de um estro inoportuno.
A inspiração realmente oferece belas formas, mas produz muitos erros.
A Beleza não deve sobrepujar a Verdade, como Wilde parecia querer dizer.
E onde então buscar a melhor forma no pensamento?
Encontro alguns caminhos na meditação.
Busco as palavras de homens habituados a tal prática.
Homens desprovidos de acometimentos puramente ocasionais.
Pena que quase sempre tenho que recorrer ao Oriente.
O homem ocidental é extremamente apegado a duvidosos valores espirituais.
Eu mesmo me incluo entre esses.
Em nosso país são raríssimos os que não escrevem com algum tipo de sentimento que talvez fosse melhor ser desprezado.
Mas tenho a honra de ser amigo de alguns desses poucos.
Por um deles tenho uma especial admiração e afeto.
Chama-se Júlio Teixeira de Lima.
Esse homem, formado na Escola Teosófica e estudioso das ciências orientais, é escritor, poeta, músico, artista plástico, filósofo e sei lá mais o que, pois quase tudo encontro nele.
Apresento-o aqui, porque não somente os seus escritos, mas como todo o seu trabalho em diversas atividades, é um fiel exemplo do desapego à inspiração e o amor ao exercício da meditação.
Convido o leitor a visitar o seu site (www.icaroartes.com).
Encontrará nessa página a que deveria ser a verdadeira forma, e única aceitável, de crítica.
As palavras realmente fluem sem rancor ou qualquer outro sentimento.
Observem seus quadros e entalhes, totalmente desprovidos de estros e alicerçados em raízes meditativas do esoterismo.
Imploro que escute algumas de suas canções. Sons e letras enaltecedoras sem, no entanto, quaisquer cunhos apelativos.
Tudo é feito de forma suave e verdadeira.
Se tempo ainda vos sobrar, visite o orkut desse adorável homem e observe a forma carinhosa e agradável com que ele nos expõe o seu perfil.
A forma de manifestação de Júlio Teixeira bem dá crédito a todas as palavras neste texto expostas.
Encerro, então.
.
.
PS
Uma amiga, por que tenho real admiração, alertou-me através de seu comentário nessa postagem, o erro na grafia do termo übermensch'.
Foi lamentável, realmente. Talvez tenha ocorrido por erro de digitação ou devido eu estar com o 'S' de super-homem na cabeça quando escrevendo.
Não consertei a falha no texto, para não invalidar suas palavras.
Faço aqui o alerta ao leitor, no entanto.
Em vez de 'sbermensch', leia-se 'übermensch'.
Aproveito para realçar uma expressão que uso no começo da matéria: 'Prováveis enganos".
Faço questão de mostrar maior ciência dessa expressão, para deixar claro que não tenho a menor e estúpida pretensão de ser o dono da verdade.
Nem sei mesmo se em anos vindouros ainda estarei de acordo com tudo que escrevi até então.
Tanto eu quanto o leitor, somos mesmo frutos de transformações oriundas do desejo do conhecimento.
Lembro que quando crianças, acreditamos até mesmo em Papai Noel.
Sorte que o homem esteja sempre evoluindo.
Desde que tenha o intelecto livre.
 
Comments:
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Muito boa sua colocação!
Parabéns.
 
Bom ttexto, amigo. Bem verdadeiro seu discurso!

http://www.orkut.com/Home.aspx?xid=1499555725355731350
 
Deus não escolhe capacitados mas capacita escolhidos. Essa frase nada mais quer dizer do que: SE VOCE DESEJA TRABALHAR PELO BEM DAS PESSOAS não importa que problemas vc tenha que não possa se sentir útil...voce se sentirá capacitado por Deus.
Nada mais que isso.
Temos o livre arbítrio e podemos escolher caminhos... Graças a Deus!
E que Deus nos conceda sabedoria para falar o melhor sempre...e para viver o que falamos.
 
PELO JEITO VOCE (SR.) NAUM ACREDITA EM NADA MESMO, MAS CADA CABEÇA UMA SENTENÇA NAUM TENHO MUITO A COMENTAR MAS POSSO DISCORDAR DE CERTAS COISAS........ AGORA QUE DEUS NOS CONCEDE SABEDORIA ISSO CONCORDO PLENAMENTE AGORA QUE O LIVRE ARBITRIO EXISTE DISCORDO LITERALMENTE.... SE FOSSE ASSIM NÃO HAVERIAM POBRES, NEM DOENTES ALIÁS NAUM EXISTIRIA NADA QUE NAUM FOSSE DE NOSSO TOTAL ALCANCE..... ESCOLHERIAMOS O MELHOR E PRONTO.......
 
Concordo em parte com o que vc diz. Você parece ter algum conhecimento bíblico, mas por suas palavras, ainda precisa conhecer o Deus verdadeiro e único que é soberano em suas escolhas e que faz o que quer, quando quer e por quem quer e nem por isso é injusto!
Apenas possue esse direito por ser nosso criador e dono.
Quando O conhecemos de perto, podemos compreender melhor suas atitudes e aceitar as suas decisões, ainda que elas nos parecam injustas!
 
Olá, Sombras,

Poderia comentar longas horas a respeito deste seu último texto.
Primeiramente, acredito em inspiração - até porque a Arte, muitas vezes, não tem compromisso com o que se diz 'verdade'. Um músico, por exemplo, se acometido por inspiração no momento de composição de sua obra, certamente a realizará com maior destreza.
Talvez o que falaste sobre a inspiração seja válido com as Letras - mas nos outros âmbitos das Artes, sua aplicação é um tanto dúbia.

Até porque até mesmo as Letras e a Poesia dão margem à diversas interpretações - como o exemplo da frase de Pessoa. Eu a interpreto de um outro prisma, assim como não vejo ligação da escolha dos capacitados com a filosofia de Nietzsche e o seu Übermensch (confundiste a grafia, certamente). É tudo uma questão de aprofundamento no contexto em que suas frases estão inseridas e um pouco de conhecimento de sua obra em si.

A autoria da frase que dá nome ao texto, alguns conferem a Einstein. Porém, continua uma incógnita. Por fim, quero lembrar-lhe que esta mesma frase tu dedicastes a mim:

(Excerto do e-mail de 21/10/06)
Lembre-se da citação bíblica: “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos.”
Talvez seja verdade.


Que paradoxo, hum?


Um grande abraço,

Mariana
 
DEUS NÃO ESCOLHE OS CAPACITADOS, MAS CAPACITA OS ESCOLHIDOS.

" Os escolhidos são aqueles poucos raros e iluminados que não se calam e lutam contra àqueles escolhidos pelos homens"
s homens escolheram Hitler,Mussolini e tantos outros perfidos, porem Deus capacitou também outros grandes homens que lutaram contra estes e os derrotaram.
 
Tudo se resume a uma coisa:
INTERPRETAÇÃO!!
Como cada um, com sua formação genética, ambiental e cultural, vai enxergar sob seu ponto de vista, jamais se chegará a um consenso.
Eu, por exemplo, gosto de inspiração para escrever, pois eis que mais me aproximo de Deus e de meu modo sincero de ser!
Quanto às suas interpretações de cada frase que escolheu, não consegui coincidir nenhuma com as minhas!!
Que bom, não é?
Voltaire: "Posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las".
E essa acima?? Como vc interpreta?? Voltaire estava inspirado??
 
Adorei esse texto - como gosto de vários outros aqui neste blog.

Só não acho acertada a interpretação da frase de Kennedy. Ora, o Estado não vive sem o homem, como você mesmo disse. Por isso, para que o Estado continue vivo, o homem tem que continuar trabalhando para que ele exista - e não sentar-se e dizer "Ah, quer saber? Fiz demais, já. Estado, sirva-me!"

Se bem que, olhando por outro ângulo, quem compõe o estado são homens, também. Vendo por esta ótica, não há estado; há homens que podem fazer, e homens que precisam fazer.


... bah, estou me delongando demais e começando a escrever baboseiras. Pode ser o sono, pode ser inspiração. Enfim, registo os parabéns por mais um ótimo texto.
 
Olá!Muito lindo o txto!Como tudo que li !!!Parabéns lindo!Acredito que não sendo anjo certamente voce é uma estela!Bjo
 
Caro Sombra, realmente o deuscitado biblicamente deve capacitar os escolhidos dele sim...aliás o deus biblico fez e faz coisas bem piores. Qual o problema dele ter os escolhidos dele entao?(essa sim a maior das hipocrisias da frase, pois se ele tem seus escolhidos, deve ter os seus rejeitados...).
A minha crença em qualquer tipo de divindade sempre foi algo muito proximo de zero e agora por ultimo anda ainda mais em baixa.
Deus capacita os escolhidos? Pau no rabo dele entao.
Abraços do Herege.
 
Você é louco...! as vezes perdidos nos conflitos do dia a dia achamos que não temos capacidade ou não muito jeito de resolvermos as coisas... mas DEUS na sua doçura e seu amor nos mostra o caminho de alguma forma, e nos escolhe sim, nos capacita sim. Se deixar-se envolver pela inspiração... talvez sinta o amor de DEUS... Paz e Bem!!! pra você.
 
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