SOMBRAS SOMENTE

02 dezembro, 2006
  OS ANTÔNIMOS NÃO EXISTEM

Passei a infância atormentada pelos antônimos.
Podia compreender e aceitar facilmente os sinônimos.Mas os antônimos...!
Se preto é o contrário de branco, por que então eu não conseguia dar antônimo para verde, marrom ou vermelho?
Se alto é o inverso de baixo, qual o oposto de mediano?
Era agonizante.
Pior que o último teorema de Fermat.
Contudo tive algum progresso ao inferir fatores de percepção, depois de uma fracassada tentativa em encontrar se uma qualidade tinha precedência sobre outra.
Até que numa noite em que estava às escuras fazendo minhas necessidades fisiológicas (sempre apagava a luz quando ia ao banheiro), não consegui distinguir facilmente a brancura do rolo de papel-higiênico.
Deve ser isso pensei.
Uma pessoa só é preta porque assim a vejo.Mas se não possuísse o sentido da visão?
Não se pode diferenciar o verde do azul, o marrom do vermelho, se um fator de iluminação não inferir.
O céu não é azul.A luz o faz assim parecer.
À noite a neve não parece tão branca.
Para eu dizer que a neve é branca é necessário que a luz do sol esteja interferindo na minha percepção.
Se sempre tivesse vivido em cavernas escuras isso não seria tão evidente.Seria bastante provável a minha ignorância sobre sua cor. Assim como para um cego é bastante difícil descrever a beleza do azul do mar.
Acontece, porém, que mesmo assim ele não deixa de ser azulado.O que tirava um pouco o valor da minha descoberta.
Mas pode-se daí aferir que a estrutura aparente de uma coisa depende de outra intimamente relacionada.
Um jogador de basquete de dois metros e tantos centímetros de altura, não parecerá tão alto se observado a cem metros de distância.
Seria preciso, portanto colocar de lado momentaneamente os adjetivos e buscar os fatores que dão qualidade às suas essências.
Lembro que minha felicidade foi pouco duradoura, pois logo descobri que os adjetivos não eram tão uniformes como me haviam ensinado.
Gordo e magro, por exemplo, são qualificações de outra classe.Independem dos fatores que me levam ao reconhecimento das cores.
Posso saber se uma pessoa é alta, gorda ou magra, mesmo de olhos fechados, usando o sentido do tato.Mas a maior merda foi descobrir que outros adjetivos, senão todos, podem ser mutáveis de acordo com o tempo, espaço, local e outras variadas condições.
Um indivíduo bom é provavelmente o contrário de um indivíduo mal, por exemplo.
Ora, uma pessoa não seria considerada má somente pelo fato de possuir escravos na Roma Antiga.
Isso era totalmente de acordo com a ética da época.Perfeitamente plausível.
Nos dias de hoje daria cadeia.
A agiotagem, tão comum nos dias atuais, foi condenada em outros tempos.Muitos, durante a Idade Média, foram inclusive trucidados por exercerem tal atividade.
Um mesmo objeto pode parecer pequeno se colocado num espaço grande, e grande se colocado num espaço pequeno.
Então tudo são sombras?
Nada é real?
Nada é verdadeiro?
Será essa a causa de tanta desonestidade nos dias atuais?
O que ontem parecia ser errado, a corriqueira prática em nosso tempo oferece ao adjetivo a oportunidade de mutações?
Você alguma vez não já escutou a usual indagação, “se todo mundo faz, por que eu não vou fazer também?”
 
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