SOMBRAS SOMENTE

24 outubro, 2006
  ARGUMENTANDO SOBRE O SUICÍDIO

Interessante ter sido Sócrates obrigado a cometer suicídio, pelo fato de ter dedicado um bom tempo de sua vida refletindo numa posição que condenasse tal atitude.
Descobriu inclusive um argumento bastante rico e bem esclarecedor para essa condenação.
Eis: “Não agradaria a um pastor que suas ovelhas resolvessem tirar a própria vida”.
Simples e cristalino. Como as idéias devem ser.
Com um número ínfimo de palavras oferece uma total compreensão. Capaz de ser construída até em forma de silogismos.
Contudo deixa brecha para muita contra-argumentação.
Primeiro, antes mesmo de tudo, precisa-se engolir uma idéia de difícil digestão. A de que um homem (mesmo sendo Sócrates) descobriu ou entende os desígnios divinos. Para muitos isso já poderia jogar por terra toda a idéia em si.
Depois temos que admitir que a idéia de Deus (pastor), ou seus planos e fins, em relação ao homem (ovelhas), sejam tão simplórios quanto os interesses de um camponês ao cuidar de animais. O que diminui ainda mais o valor do argumento.
Mas a frase ainda permanece intocável, se a entendermos puramente em seus aspectos técnicos, humanos e terrenos.
Daria realmente grande tristeza ao pastor perder as suas ovelhas.
Como podemos atacá-la, então?
Tarefa bastante árdua se tentarmos diretamente contra todo o conjunto, mas encontramos com razoável facilidade lacunas nos elementos.
Vamos lá.
Um pastor é um homem do campo, o que nos leva a supor um certo grau de ignorância. E ovelhas, embora irracionais, possuem instintos de preservação bem conhecidos e estudados em todas as espécies animais.
Agora vamos elaborar uma composição com tais fraquezas e virtudes.
Talvez agradasse a um pastor, ignorante em veterinária, que uma ovelha, com seu instinto de preservação, se matasse quando tivesse uma doença que pudesse contaminar todo o rebanho.
Não ficou tão mal.
Esse suicídio realmente agradaria ao pastor.
O prejuízo seria pequeno. Bastante pior seria perder todas as ovelhas.
Não, não.
Algo está errado.
A mesma idéia de não ter prejuízos fica sujeita a fácil ataque.
O pastor continua perdendo uma ovelha.
E qualquer um poderia argumentar que melhor seria a ovelha esperar que o pastor reconhecesse sua enfermidade (um pastor mesmo ignorante, tem experiência em tais assuntos) e a isolasse das demais procurando obter em seguida uma possível cura, mesmo que para isso fosse preciso recorrer à ajuda de pastores mais experientes.
Ela podia ou não ser salva.
Havia ainda possibilidades de não ter prejuízo algum.
O suicídio seria uma precipitação.
Acontece assim com seres humanos.
E agora me encontro na estaca zero.
Penso, penso... E nada encontro.
Sócrates parece perfeito.
A oração mesmo sujeita a réplica, possui tréplica vencedora.
Foi construída com argúcia.
É perfeita.
Invejável até.
Sinto-me mal. Angustiado.
Vou ter que apelar.
Não posso me entregar facilmente.
A frase pode ser perfeita, mas na concepção da idéia deve haver falhas.
Já mostrei isso no começo desse assunto.
Agora preciso encontrar nessa concepção uma falha maior para compensar a humilhação sofrida perante a sentença em si.
Mas nada encontro.
Vou ter mesmo que apelar.
Sem regras.
De forma brutal, talvez.
Posso ter consciência da derrota e admiti-la é um dever do bom senso.
Mas complacência não.
Vamos lá.
Meu douto amigo Sócrates...
Posso compreender e até aceitar, não sem alguma relutância, seu argumento sobre o mal do suicídio, enquanto o considerarmos, e tão somente nessa condição, sob um ponto de vista ético comportamental numa possível inter-relação entre entidades divinas e o homem. Digo possível para lembrar-lhe que figuras endeusadas são criações humanas e nada há que possa comprovar concretamente a real existência de tais instituições.
Tendo por certo que mesmo a mais ignóbil das criaturas seria benevolente nessa imaginosa, mas plausível, inter-relação, nada me sobra para entestar.
A criação tem realmente deveres com o Criador. Está isso até muito além da ética, ousaria dizer. É a própria nobreza no sentido mais amplo.
Todavia em seu raciocínio não se encontram evidências de que tal inter-relação está implícita (a frase tende a se inclinar mais para uma dedução do que indução), parecendo ficar ao bel prazer uma procura de outros ângulos.
Não acho, contudo correto vasculhar por arestas quando se tem uma concordância quanto à existência de Deus (como católico que sou), pois além de contraditório, enquadraria até uma incoerência moral. Mas mesmo tendo como o amigo, a crença em Deus, quero lembrar-lhe da diferença de nossos deuses e de outros e outros tantos espalhadas por essa terra que o homem habita. Diversas são as religiões tanto no seu tempo quanto no meu. E a conduta e postura perante Ele também diferem.
No entanto o raciocínio repousa sobre a visão, desejos e desígnios de um único deus; o de Sócrates. E os desejos divinos, vistos com olhos humanos, podem ser interpretados de várias formas. A que vou apresentar agora (tentando interpretar o meu Deus, já que pouco conheço do seu) talvez cause perplexidade, mas não há nada entre o céu e a terra que possa atestar leviandade e falsidade nesse contra-argumento.
Deus aceita o suicídio da mesma forma que aceita outros males. É benevolente a tudo. Pois tudo, até o mal é obra de Deus. Somente ele nos faz perecer em terremotos, incêndios, furacões ou outras catástrofes e dessa forma estamos atendendo a seus desígnios. Deus deseja os conflitos e guerras. Tenho a Bíblia como testemunho dessa afirmação. Nela o vemos jogando pragas, resolvendo contendas por meios belicosos, conclamando povos a guerra, tragando homens em seus mares. Porque tudo isso de uma forma que jamais poderemos compreender serve aos seus desígnios. Sendo Deus onipotente não poderia resolver a questão de David e Golias sem o conflito e morte? Até o mais humilde dos homens poderia encontrar uma forma conciliadora e mais pacífica para a resolução dessa contenda, mas ele ordena a luta parecendo necessitar da morte de Golias. Não afoga implacavelmente centenas de seus filhos no Mar Vermelho? Ou é possível acreditar que Golias e os egípcios que feneceram sob as águas não são produtos de sua criação? Seria admitir então a existência de outros deuses concorrendo consigo, e um tentando acabar com os filhos do outro, e isso implicaria na negação da onipotência. Não. Todos são seus filhos. E os salva e os mata por motivos para nós inalcançáveis.
Deus é o único responsável por todos os males que acomete o homem e pelo mal que o homem comete.
Nero, Calígula, Ivã, Jack Estripador, Hitler, Nathuram Godse ou Lee Osvald, todos são seus filhos.
Os muçulmanos que matam os judeus ou os católicos que matam os protestantes são igualmente frutos de sua criação.
Todos servem ao mesmo propósito que fazem com que o mal e o bem, mesmo sendo forças antagônicas, se irmanem na necessidade de um pela existência do outro.
Poderíamos descrever a bondade, se não conhecêssemos a força do oposto?
Mesmo para reconhecer uma simples obra de arte como de má qualidade é preciso que eu já tenha certa familiaridade com as obras boas.
Um necessita do outro.
Embora pareçam distantes em seus objetivos, possuem a mesma essência de finalidade e existência.
São como dois irmãos gêmeos que nunca se viram, mas se comunicam constantemente.
E no fundo são talvez a mesma coisa.
Em todo ato de maldade é possível identificar uma coisa boa e versa-vice.
Se aniquilarmos um, mataremos o outro.
E é justamente porque os dois sobrevivem aos séculos que acontece de forma espetacular a existência humana.
Perecesse uma das partes e o homem também morreria.
Porque são as forças que o Bem e o Mal possuem que nos impulsionam.
Para crer nisso basta lembrar que em tudo, exatamente tudo que admiramos ou rejeitamos, essas forças emanam.
Que tragédia para a vida se Homero não as pudesse usar em suas obras. De que falaria Eurípides em “Medéia” ou “Hipólito”?
Toda a beleza do Novo Testamento está no mal afligido a Cristo. Sem a coroa de espinhos e a crucificação tão dolorosa, provavelmente sua história não atravessasse os anos com a mesma intensidade que ainda possui nos dias atuais. E todo o seu sofrimento que chega a atingir espaços da poesia, deve-se à existência do mal. Sua vida é tão maravilhosa do ponto de vista artístico que fico tentado a dizer que temos uma dívida com Judas e Pilatos.
Observemos os tiranos de outrora. Milhares e milhares de almas perdidas para a glória de César. Imensas planícies e florestas abarrotadas de cadáveres para atender aos seus caprichos, mas historicamente basta a passagem do Rubicão para justificar todas essas matanças.
Veja Napoleão em Iena, Austerlitz, Leipzig. A atrocidade cometida em Java.
Quatro mil cabeças rolando a fio de espada. Os homens suplicando misericórdia. A areia encharcada de sangue.
Veja Stálin e os milhões de russos fuzilados. Hitler e o suplício dos judeus. Toda a Europa despedaçada. Mas as mesmas bombas V1 e V2 que caíram sobre os ingleses, levou o homem à lua. Muitos terminaram redimindo Von Braun por isso.
Felipe, Alexandre, César, Aníbal, Ivã, Napoleão, Stálin... O que teriam para fazer os professores de História se tais homens não tivessem nascido?
Do que falariam Dostoievski, Gorki ou Tolstoi em suas obras se sentimentos mesquinhos, vilipendiosos, brutais, avarentos ou gananciosos não acometessem freqüentemente a alma humana? Qual seria o sustento de Dante ou Victor Hugo?
Igualmente as forças do bem.
Começando por você, Sócrates, cuja vida foi permeada pela bondade e persistência à pratica dos sentimentos nobres e total desprezo pelos abjetos e mesquinhos desejos da alma humana.
Admiremos juntos a fidelidade na crença de João Batista, mesmo à custa de sua cabeça.
O total despojamento em Cristo. A magnífica pureza de sua curta passagem entre nós. As palavras saídas de sua boca como se fossem madrigais. “Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”. Isso é música. Oscar Wilde cita em “De Profundis”, que essa frase vale toda uma existência. Realmente, nada mais precisaria ele ter feito. Mas fez. E muito mais.
Vamos juntos glorificar a aparição do filho de Pedro Bernardonne. A alma mais humilde que viveu entre os homens. Santo numa época de trevas e demônios que era a Idade Média. O momento quase mágico em que se despoja das roupas num tribunal de Assis, sua cidade natal. As palavras ímpares que jamais poderão ser repetidas num leito de morte: “Peço desculpas ao meu corpo, pelo muito que o fiz sofrer”.
Aproveitemos para exaltar sua discípula, Santa Clara, detentora do mais sublime sentimento que uma mulher devotou a um homem. Sentimento esse que nem Platão imaginou existir. Tentemos vislumbrar o mais simplório jantar oferecido a uma amante, e ocorrido uma única vez. Pão e água sorvidos sobre um chão de pedras frias.
Não podemos olvidar Gandhi, certamente uma das últimas aparições abençoada pelo Espírito Santo.
A lista do Mal e do Bem é interminável. Os desejos Dele também.
E tudo parece existir para a glorificação Dele. Todas as forças seguem em sua direção. Nada há que não contenha a Sua mão. Por isso é considerado onipresente.
Então, meu caro Sócrates, nada pode ser condenado.
E caso ainda seja contra o suicídio, saiba que o aceito pelo simples fato de que a vida me seria bem menos interessante se não pudesse haver obras como Romeu e Julieta, de Shakespeare, onde tal ato aparece de forma esplendorosa e reveladora da divina existência.
 
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