ACONSELHANDO A FUGIR DAS PESSOAS CHEIAS DE BOA VONTADE

Sempre tive certa animosidade com pessoas que se apresentam repletas de boa vontade. Tenho mesmo uma persistente ojeriza a elas.
Tento me reeducar, mas não consigo. Não as aceito mesmo.
E, quiçá, tenha razão.
Já observou esses tipos de indivíduos?
Basta você pensar em algo e eles se apresentam para fazer. Inteiramente solícitos.
Mas eu sempre desconfio.
É só alguém se apresentar para mim esbanjando boa vontade e eu fico com uma pulga atrás da orelha.
E minhas desconfianças quase sempre são acertadas.
Repare naquele funcionário de sua empresa ou no subordinado que você comanda que está sempre disposto a lhe atender imediatamente. Correndo se preciso for. Disposto a fazer horas extras gratuitamente se solicitado ou vezes até desnecessariamente, para mostrar total abnegação.
Quase sempre você termina tendo que despedi-lo.
Sim, isso mesmo. Na maioria das vezes o funcionário que apresenta a maior boa vontade na sua empresa é um dos de mais breve passagem por ela.
E realmente eles são prejudiciais.
Perigosos mesmo, eu diria.
Porque no fundo, numa rápida análise, essa superficial boa vontade é uma tentativa, por mim já bem manjada, para dissimular dois grandes defeitos: desonestidade e incapacidade.
Quase sempre ele possui um dos dois.
Ou mesmo os dois.
Vamos ao primeiro citado.
Um funcionário que está cometendo furtos numa empresa e isso está lhe gerando um bom rendimento, rejeita até dia de folga.
Nem fale em férias, ele as odeia. Na verdade uma de suas maiores angústias é a aproximação delas. Quando já é de certa idade o problema é a aposentadoria.
Repare na maioria desses políticos.
Um deputado fácil e rapidamente se aposenta, ou pode se aposentar. Ficar em casa ou viver passeando por aí, com uma excelente mesada dos contribuintes.
Mas não.
Estão sempre na busca desenfreada de uma reeleição.
O salário seria o mesmo. Trabalhando ou não. Com a vantagem de ter todo o tempo livre para outras atividades.
Rejeitam, no entanto.
Ainda quando são pegos roubando, procuram desesperadamente não perder seus cargos, mesmo à custa de uma total humilhação que inclusive atingirá toda a sua família.
E olha que todo mundo sabe que parlamentar que é flagrado roubando, não tendo jeito de sair desse flagra e caso perca o emprego, tem direito a receber aposentadoria e outros benefícios que nenhum trabalhador honesto de empresas privadas possui.
Pode ter coisa melhor?
Roubei. Não preciso devolver nenhum tostão. Vão me pagar um excelente salário para ficar em casa. Direitos a diversos e vantajosos benefícios. Posso se quiser abrir uma empresa para gerar mais rendimentos. Etcétera, etcétera...
Mas abrem mão.
Utilizam todas as forças ao alcance para permanecerem onde estão.
A maioria, quando consegue, morre em seus postos.
Você já viu alguém gritando pra todo mundo que quer trabalhar, mas somente na antiga função, mesmo que lhe seja oferecido um bom dinheiro para não fazer nada?
Não, nunca viu.
Ninguém faz isso.
Ou melhor, eles fazem.
Salafrários fazem.
Qualquer um que está roubando o suficiente para agüentar todo tipo de vergonha, faz.
Observe um presidente da nossa república.
Pode haver trabalho mais estafante?
Durante quatro anos reuniões todos os dias, pronunciamentos, manobras políticas, solucionar problemas de dezenas de ministérios, enfrentar a opinião pública quando é chamado de ladrão, não poder se dedicar à família...
E veja se não querem mais quatro anos.
São capazes até de alterar a constituição para isso.
Não vendem a alma pro diabo para conseguir se manter no cargo que deveriam largar porque já foi negociada antes, para ingressar na carreira.
Vamos ver agora um pouco do segundo defeito.
Incapacidade.
Pode a princípio parecer menos prejudicial que a primeira, mas é igualmente perniciosa.
Na verdade, ela pode causar danos até maiores, pois quando descobrimos que estamos sendo roubados, tomamos logo uma providência. Pelo menos na vida privada é assim, embora nas esferas da administração pública costuma levar mais tempo. Já com o incapaz, não. Isso demora bem mais tempo para acontecer.
Como aparenta não estar fazendo nenhum mal, pode até perpetuar-se em suas atividades. E quando chega o momento da aposentadoria a ser agraciado com rasgados elogios pelos brilhantes serviços prestados durante anos.
Na verdade, nunca fez porra nenhuma.
Passou décadas batendo o ponto todo dia e esperando chegar o final do mês para embolsar os proventos.
Na iniciativa privada não é costume deixá-los se criar. Estão sempre mais infiltrados em órgãos governamentais.
Contudo, não são gatunos. Não costumam roubar.
Os incapazes, não. Ora, eles são incapazes. Só roubam se alguém planejar e comandar tudo.
Existe é claro aquele que é as duas coisas ao mesmo tempo.Incapaz e desonesto. E aí é preciso saber diferenciá-los bem.
Não ofereço aqui nenhuma explanação sobre o incapaz-desonesto pelo fato de ele ser bem raro. Como é totalmente incapaz, qualquer falcatrua é logo descoberta e rapidamente ele desaparece de cena.
Numa rápida ilustração, lembro que quase sempre o desonesto é um elemento de muita capacidade senão nem seria capaz de roubar, pois até isso requer certo talento, mas pouco se utiliza dessa virtude para não ter que dispensá-la em duas frentes de atuação. Ou bem rouba, ou bem trabalha.
Esse é o que grita para não o dispensarem nunca do que está fazendo.
Já o incapaz, não.
Se o mandarem embora, apenas vai pra casa se lamentar com a família a perda da boquinha. Observe o exemplo de vários integrantes do PT que desapareceram de cena.
O incapaz quase sempre é um funcionário ‘dedicado’. Aquele que não falta e nem chega atrasado. Reconhecendo a sua incapacidade fica temeroso de perder o emprego já que, sabendo de seus limites, entende a dificuldade de ter que arrumar outro depois.
Observem que o desonesto-capaz não tá nem aí para essa questão. O que digo é facilmente comprovado verificando a assiduidade ao trabalho de alguns parlamentares. Faltam pra caralho. Nem ligam para o que der. Possuem consciência total de suas capacidades. Se der algum problema, sabem que é possível contornar.
Voltando ao incapaz.
Sim, é ‘dedicado’. É eficiente.
Como todo mundo é.
Qualquer pessoa que não esteja no nível de quociente intelectual que a Psicologia ou a Psiquiatria intitulam como idiotice ou imbecilidade, é eficiente.
Se você mandar qualquer pessoa executar determinada tarefa banal, ela executa.
Não pode é solicitar que resolva problema ou execute algum trabalho que requer criação e engenhosidade.
Aí você se estrepa.
Aí você precisa de um funcionário eficaz.
Porque há realmente, como ensinam os administradores de empresa, uma grande diferença entre as duas coisas. Eficiência e eficácia.
Não tenho porque ter alguma coisa contra o eficiente.
O mundo precisa deles.
São eles que vem realizando (muito bem, ressalto) as tarefas mais estafantes do nosso cotidiano. O eficaz não sobreviveria sem eles.
O que estou aqui expondo e criticando é o incapaz.
É aquele elemento que é pago para uma função de extrema importância, algumas vezes até de benefício público, e tá ali somente para arrumar o leite das crianças.
Pois não deveria ser colocado ali. Não possui capacidade.
Acredite, ele oferece tão ou mais prejuízo que o desonesto.
Porque como já citei, o desonesto uma hora cai do cavalo, mas o incapaz, pela sua aparência inofensiva, vai ficar anos e anos com a bunda na cadeira.
Eu já disse. Ele não falta ao trabalho, não costuma atrasar, tem bom comportamento. A grande maioria dos colegas o considera um funcionário exemplar.
Mas vamos supor que suas nádegas enormes (quase sempre adquirem) estejam ocupando a cadeira do ministro da Educação.
Pode imaginar o prejuízo?
Por quatro anos vai ficar ali apenas desgastando-a. Ora assinando papéis, ora inaugurando alguma coisa que o ocupante anterior da cadeira deixou por terminar, ora tendo que ir a algumas reuniões, ora dando algumas entrevistas e falando merda, como o que já deve estar parecendo esse meu monte de oras...
E a população ficando mais ignorante.
Porque ele é incapaz. Não tem engenhosidade.
Se sua pasta estiver cheia de problemas e ninguém ensiná-lo a resolver, cheia de problemas vai permanecer.
E aí o prejuízo não é só financeiro. O dinheiro gasto com ele, seu 'staff ' e as merdas que costuma fazer.
Não. O prejuízo será bem maior.
Sentiu o perigo?
Entendeu como ele pode ser mais maléfico que o desonesto?
Para finalizar, vou expor aqui suas principais características, para que o leitor, as se deparar com um deles, saiba logo reconhecê-lo.
Alerto antes ao leitor, que procure nunca confundi-lo com o desonesto-capaz. Ambos dão prejuízo, mas poucas características têm em comum.
Vamos lá.
A)Prefere sempre um emprego público, já que dá mais estabilidade. Reconhece que sua incapacidade não o levaria muito longe na iniciativa privada.
B)É a personificação da boa vontade. Sempre disposto a qualquer tarefa, desde que seja trabalho mecânico ou rotineiro. Se você pedir que execute um serviço mais complexo, se prepare para ver um queixo caído. A disposição desaparece completamente.
C)Tem a maior ojeriza por inovações. Diga “vamos mudar isso” e vai ter um homem extremamente inquieto e nervoso na sua frente. Provavelmente você ouvirá frases do tipo “talvez não seja muito bom”.
D)Quando inseguro no emprego, procura sempre compor panelinhas. Sabe que pode precisar dos colegas numa provável demissão. Talvez o possam defender.
E)Tem a seu favor as características de ser pontual e estar sempre bem apresentado no serviço. Instinto de preservação.
É isso.Espero que essa lição seja útil.
Deverá ser, creio, pois nossa nação está infestada desses elementos.
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